quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O QUE TENHO DE MIM

Foi um ano difícil! Muito difícil!
E justamente por esta razão, sou grata.
Posso dizer que todas as dificuldades pelas quais passei - e ainda passo - contribuem para que muitas transformações ocorram dentro de mim.

Consegui aprender boas lições sobre a vida, sobre as pessoas... Consegui modificar conceitos, agregar valores. Fui fundo na dor e no amor. Me machuquei e me curei.

No final do ano passado, perdi a consciência, caí, bati a cabeça no chão duro do banheiro da minha casa e fiquei com parte do rosto cheio de hematomas. Milagrosamente nada aconteceu além dos hematomas, que lentamente desapareceram do meu rosto ao longo dos meses.

No meu processo interno, não tive um chão duro para cair, porque simplesmente não encontrei o chão. Sabe aquela expressão "perdi o chão"? Pois é... foi assim! Flutuei no ar sem encontrá-lo e agarrada na minha fé, descobri minhas asas fortes... saí voando como a borboleta que deixa seu casulo e fui borboletear ao encontro de almas nobres e no colo seguro de Deus. Os hematomas invisíveis encontraram o bálsamo da cura na aceitação de mim como sou e na aceitação do outro como ele é.

Algumas fontes secaram e outras jorraram abundantes, de tal forma que saí saciada e enriquecida com o que tenho. Com o que tenho de mim!
E o que tenho de mim, é tudo que vou levar desta vida.

Foi um ano no qual exercitei a criatividade. Fiz vasos, plantei mudas e cuidei delas. Consegui realizar um antigo sonho: cultivar uma pequena horta de temperos e ervas. Com elas, a culinária também se tornou mais criativa.

Também consegui exercitar o desapego. Será o primeiro Natal sem o Bruno, meu primogênito. Não faço ideia de como vou me sentir. Lembro-me de que, no seu primeiro ano de vida, fiquei ao lado do berço imaginando como Maria se sentiu quando se tornou mãe de Jesus. Hoje, fico imaginando como ela se sentiu quando seu filho andou com "estranhas ideias" para aquele tempo.
O que tenho é o consolo de que, onde ele estiver, estará bem.

Para vocês meus leitores, fica a minha gratidão pelo compartilhamento das minhas emoções e experiências! As estatísticas registram que houve mais de 4.000 acessos aos textos que escrevi neste blog em 2015. Isso me faz pensar que talvez alguém tenha aproveitado alguma coisa e que minha missão nesta vida terrena está sendo cumprida.

Considero-me um ser espiritual vivendo uma experiência humana. Quando deixar esta "casca" irei embora com tudo o que tenho. Tudo o que tenho de mim!

Que a luz brilhe nos nossos corações intensamente em benefício do amor! Feliz Natal! Feliz 2016!



Kátia Ricardi de Abreu






terça-feira, 24 de novembro de 2015

PARA PERDOAR

EU, XX  PERDÔO VOCÊ XX
E EXPRESSO TODO MEU AMOR.

Considero que não houve intenção de causar a mim qualquer sofrimento. Pelo contrário, suas ações ou a falta delas, foram no sentido de evita-los. Também considero a dificuldade de sua parte em fazer ou não fazer o que eu da minha parte não deveria esperar. Peço perdão pelas expectativas que construí sobre como você deveria agir ou não agir.

Agradeço todos os momentos que pudemos trocar experiências e possibilidades de crescimento e prometo fazer da sua ausência/presença e da minha ausência/presença o mesmo exercício de bem-estar, dando lugar à saúde.

Quero lhe assegurar que não o(a) julgo, e de nada o(a) acuso. Da mesma forma não me culpo e não me envergonho de nada que fiz ou deixei de fazer.

Cada um de nós tem suas imperfeições e respeito as minhas e as suas.

Minha alma nada teme diante de você e torço para que este sentimento seja recíproco. Não lhe desejo mal algum e envio a você diariamente minhas orações pela sua felicidade. Você tem o direito de ser feliz de acordo com as eleições e escolhas feitas por você. A mim cabe a reconstrução dos meus equipamentos emocionais diante das suas escolhas sem inveja nem ciúme, sem mágoa nem amargura.
Receba minha ternura e gratidão. Entendo que as emoções desagradáveis que senti foram necessárias para que eu entrasse em contato com sentimentos superiores. Foi constrangedor  e embaraçoso para mim, mas dou a você o direito de se comportar conforme seus valores e você tem a minha compaixão.


Eu me perdôo e te perdôo. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

FAÇA SILÊNCIO

Foi entre os arbustos e flores cultivadas pelo "Seu Candinho" no Colégio Santo André, que certa vez me foi revelado a importância do silêncio. Adolescentes inquietas que éramos, não bastava olhar para o cenho franzido da Madre Marta que em pé, com o sino embaixo da axila esquerda, aguardava as andrelinas enfileiradas, fecharem a boca. Cutucões para lá e para cá, após alguns segundos, nem os pássaros ousavam interromper o profundo silêncio que se fazia valer no páteo externo gramado, rigorosamente verde. Ela subia alguns degraus da escada que dava acesso ao bosque, para que todas as alunas pudessem vê-la e iniciava a reunião, apelidada por nós de "sermão da montanha". Habilidade ímpar tinha esta mulher em conseguir ser ouvida e entendida sem microfone, naquele cenário mágico e inesquecível. Aprendi a disciplinar minha escuta.

Mas não ficou só nisso.

Um jovem padre, descontraído e brincalhão,carregando nos braços um violão, ensinou-nos uma canção feita por ele. Aos primeiros acordes, as vozes femininas, misturadas com aquela única voz masculina, entoava: "Faça silêncio em seu coração, porque o Senhor lhe quer falar".
Irala, padre Irala. Foi ele quem ensinou-me a desenvolver a sensibilidade para ouvir meu coração através do silêncio. Canção suave, dizia que o Senhor nos fala na escuridão, nos fala quando amanhece o dia, nos fala através da natureza, nos fala... mas, precisamos aprender a fazer silêncio para ouvir.

Assim me habituei a fazer do silêncio meu aliado. E mais tarde na vida, desenvolvendo habilidades como psicoterapeuta, aprendi mais sobre o silêncio e sua importância para o nosso equilíbrio. Como é saudável aquietar-se para decifrar nossos sentimentos, para encontrarmos nossas verdades, para decidirmos nossos rumos.

As lições de disciplina da Madre Marta e as canções do padre Irala são preciosidades que elevaram minha existência e proporcionaram conforto para a minha alma.

Hoje, meu coração é cheio de nostalgia deste tempo glamouroso e feliz. Feliz porque íamos do silêncio ao barulho sem descartar a profundidade de ambos. Batendo palmas, cantávamos com padre Irala a música que ele fez para nós:

"Mensagem de amor e fé,
Menina de Santo André,
A vida vai viver cantando
E a paz levando para quem quiser...

 Ele nos levava ao êxtase no final, onde as palmas se misturavam com risos e quiçá, com lágrimas:

Nos braços trago um violão,
No peito vibra uma canção,
E São José do Rio Preto bagunçou o coreto do meu coração,
Cidade que é simpatia
E é a moradia da minha canção....

Laiá-laiá-laiá-laiá, .......

Bons tempos!




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

CONTRATOS DE RELACIONAMENTO

Todo relacionamento é repleto de conteúdo que pode ser distorcido. Porque nós podemos contaminar nossa comunicação interna e externa sem ter consciência disso. Muitas vezes agimos com uma pessoa do presente tendo na nossa cabeça uma pessoa do passado.

Quanto mais consciência adquirimos sobre quem somos nós, mais nos isentamos destas relações transferenciais.

Para termos relacionamentos saudáveis, podemos utilizar uma comunicação simples, clara, com objetivos e expectativas declaradas um ao outro. Combinar como desejamos que este relacionamento seja, de forma específica e declarada.

Até mesmo os rompimentos podem ser contratados. Por exemplo, um casal certa vez em uma consulta, combinou: "Quando você não quiser mais ficar comigo, diga isso de forma direta por favor. Odeio ter que ficar juntando sinais para concluir isso sozinha".

Este foi o tema da palestra ministrada na EGO CLÍNICA na última quarta-feira. Falamos sobre os acordos verbais nas relações de trabalho e nas relações pessoais.


exercitando contratos de relacionamento durante palestra na Ego Clínica


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NOVO AMOR

Hoje pela manhã, um pássaro voou, pousando tão próximo que eu pude derrubar meus olhos sobre ele com tempo suficiente para ver suas cores, seu bico, o desenho perfeito de suas asas. E mal meus olhos haviam chegado até as asas, já não o encontraram mais. Criatura de Deus, ágil e faceira, voou para bem longe sem que eu pudesse guardar mais lembranças dos segundos de tempo em que passou pela minha vida.

 Posso ver outro igual, parecido, mas este, certamente não mais cruzará o meu caminho. Ou talvez, ele volte por aqui, mas eu não o reconhecerei.

Outras criaturas de Deus ficam por mais tempo na minha morada. Como a coruja, que todas as noites me espera no mesmo lugar e baila sobre a capota do carro durante uns cem metros  - provavelmente a distância suficiente para proteger seu ninho. Ou ainda, como o urutau que se confunde com o tronco da árvore há vários dias e o casal de tucanos na árvore farinheira.

Determinada a aprender com a natureza, passei a me acostumar com o canto das cigarras e o coachar dos sapos. Surpreendida com visitantes inofensivos da mata quase urbana, como as lagartixas, lagartos, teiús, gambás, saguis e por aí afora. Até mesmo um coelho todo saltitante já apareceu na relva, todo branco e orelhudo.

Com o tempo, fiquei mais envolvida com os tons de verde da natureza e desenvolvi habilidades de jardinagem para cuidar das plantas e respeitar os bichinhos da cadeia alimentar. Abelhas? Deixe-as aí na bananeira. Aranhas? Deixe-as aí com suas teias entre os galhos das árvores.  Quando algum bicho me incomoda, lembro-me de São Francisco de Assis. Saúdo sua presença e faço dele mais um companheiro da minha morada.

Aprendi que ninguém passa pela nossa vida por engano. Não existem erros nos planos de Deus. Nem  uma formiguinha cruza nosso caminho por acaso. Mesmo que a ela não tenhamos dado alguma importância. Aprendi também, que pessoas e criaturas ficam nas nossas vidas o tempo necessário aos planos de Deus. Como o pássaro que cruzou comigo hoje pela manhã. Aprendi que nossa felicidade, não pode depender da permanência de pessoas e criaturas em nossas vidas, por mais que seja grande nosso amor por elas. Amar é desapegar-se. Permitir que novas pessoas e criaturas entrem e sejam carinhosamente acolhidas, abrindo outros ciclos de relacionamento nos faz aprendizes e nos fortalece.

Meu pastor alemão, eutanasiado recentemente, deixou um enorme vazio na minha vida. Mas em todos os momentos nos quais sua ausência foi sentida, agradeci pelo tempo em que estivemos juntos, em que nossas vidas se cruzaram. Como diz Joanna de Ângelis, "nos níveis nobres da consciência de si e da cósmica, a gratidão aureola-se de júbilos, e os sentimentos não mais permanecem adstritos ao eu, ao meu, ampliando-se ao nós, a mim e você, a todos juntos. A gratidão é a assinatura de Deus colocada na Sua obra. Quando se enraíza no sentimento humano logra proporcionar harmonia interna, liberação de conflitos, saúde emocional, por luzir como estrela na imensidão sideral".

Sem qualquer pretensão de substituir este companheiro fiel, o Universo me enviou seu provável sobrinho. Recebo-o com amor. Afinal, "talvez a verdadeira felicidade seja essa: se esquecer de qualquer outra coisa que não esteja diante dos teus olhos enquanto você sorri".






quinta-feira, 15 de outubro de 2015

FIDELIDADE



Não tivemos despedida. Eu não sabia que ele iria embora da minha vida assim, de repente. Se eu soubesse, teria amado mais. Teria aproveitado mais os poucos minutos que estivemos juntos, contados e roubados dos meus afazeres, compromissos, deveres, responsabilidades.

Tratei-o com muito dengo. Permissiva demais, fui fazendo vistas grossas e deixando-o usar e abusar, transgredir regras. Tive que mudar alguns conceitos para aceitá-lo na minha vida. Que eu me lembre, só nos desentendemos uma vez. Fui corajosa, firme com ele e nunca mais ele ultrapassou os limites comigo.

Seu tamanho exageradamente grande às vezes me assustava, quando desprevenida. Mas eu me derretia como manteiga com o olhar terno, carinhoso, que ele me dirigia.
Parecia que ele sempre queria me ver. Ou, talvez, todo esse amor nunca existiu e foi apenas uma fantasia construída pela minha cabeça para suprir minha necessidade de me sentir amada. Não importava se estava calor, chovendo ou fazendo frio, parecia que ele sempre queria me ver.

Sonhei com ele antes de sermos apresentados. Sabia que seria uma experiência gratificante, assim que meus olhos se encontraram com os dele. Não sei se eu o escolhi ou se ele me escolheu. Sei que tivemos um relacionamento intenso, profundo, embora passageiro demais para o meu gosto.

Como se estivéssemos em um Universo paralelo, falávamos no silêncio a linguagem que só as almas entendem.

Uma grande perda. Vai ser difícil me acostumar com a ausência deste amigo fiel. A ele, minha homenagem! Vai em paz, seja o guardião do céu!.