domingo, 21 de abril de 2019

OS VENTOS DE MALAWI








Quem não conhece a história de William Kankwamba, deveria conhecer. Este jovem nasceu em uma família de camponeses na vila de Kasingu, no Malawi, continente africano. Em 2001, uma seca assolou a região, muitos morreram de fome e William e a sua família passaram a se alimentar apenas uma vez ao dia. William foi buscar na biblioteca da escola local, livros de ciência, mais especificamente de física, sem ao menos dominar o inglês, para aprender e compreender figuras e diagramas, que o levaram a acreditar que poderia construir um moinho de vento. Seu objetivo era gerar eletricidade e também bombear água para irrigar a terra, salvando sua família e sua comunidade da fome. William visitou periodicamente um ferro velho, juntou peças enferrujadas com partes da bicicleta que pertencia ao seu pai Trywell e construiu uma bobina eólica capaz de gerar 20 watts, suficiente para bombear água e irrigar a terra para o cultivo de alimentos em toda a vila.
A história de William inspirou o filme protagonizado por Maxwell Simba, “O menino que descobriu o vento”, sensação do momento na Netflix. Mas quem quiser assistir o próprio William contando sua história, basta acessar o Youtube e assistir sua palestra na série de conferências para disseminação de ideias, conhecida como TED.
O que me impressionou neste garoto de 13 anos, foi sua atitude perseverante diante de tantos obstáculos. Ele não desistiu de frequentar a única escola da comunidade secretamente, uma vez que foi proibido pelo diretor de estudar, por falta de pagamento das mensalidades. E ainda, persuadiu seu pai a acreditar nas suas ideias e a concordar com o desmanche da bicicleta para que algumas peças fossem usadas na construção do moinho. Sensível ao problema, não pensou em si ou até mesmo na sua família apenas, mas em toda a comunidade. Visão abrangente e comportamento negociador, somaram-se à sua capacidade intelectual.
A história de William convidou-me a refletir sobre o comportamento humano com foco na escassez e abundância. Em continentes do chamado primeiro mundo, abarrotados de tecnologia, fartura de alimentos, riquezas mil, convivemos diariamente com a miséria. Podemos refinar nossa percepção e identificar o quanto estamos distantes da riqueza da generosidade, da colaboração, da partilha, da solidariedade, da empatia. Nossa sociedade adoece na pobreza dos bons sentimentos para com nossos semelhantes. A intolerância cresce a cada dia diante da menor contrariedade neste mundo repleto de torneiras com água, mercados com vasta variedade de alimentos, mesas fartas e até o lixo farto.
Moinhos invisíveis urgem serem construídos para fabricar calor humano entre as pessoas em regiões tão abonadas de riquezas materiais. No ferro velho da vida, talvez possamos encontrar pedaços de boas intenções, sucatas enferrujadas de perdão, para seguirmos em frente e salvarmos nossa existência da miséria de nossas almas iludidas e famintas de amor.
Quantas vezes nos percebemos querendo construir moinhos que nos levem a atitudes pacíficas nas nossas relações interpessoais em prol de uma convivência mais leve.
Que bom seria se cada um de nós pude inventar sua própria engenhoca invisível, transformada em atitudes para irrigar este árido solo de nossas mentes e corações endurecidos. E que os ventos de Malawi nos inspirem a construir relacionamentos fundamentados nos mais nobres sentimentos e nas mais admiráveis ações distanciadas da escassez.

Kátia Ricardi de Abreu, Psicóloga CRP 06/15951, Diretora da Ego Clínica e Consultoria. www.katiaricardi.com.br
Publicado em 21/04/2019 na Revista Bem-Estar, jornal Diário da Região.




sexta-feira, 8 de março de 2019

SOBRE 8 DE MARÇO







            Muito já escrevi e publiquei sobre as conquistas da mulher ao longo dos anos. Muito já falei em palestras sobre a histórica data de 8 de março, instituída pela O.N.U. como o dia Internacional da Mulher.
Hoje, as comemorações não mais se limitam ao 08, avançam para todo o mês de março, com promoções comerciais e festanças mil.
As mulheres recebem descontos para trocar pneus do carro, recebem flores nas empresas onde trabalham, batons de brinde em estabelecimentos comerciais e promessas de transformações do visual em salões de beleza. Para elevar a autoestima e reconhecer a grandeza da participação da mulher na sociedade, tudo é válido, por que não?
Mas eu, euzinha aqui, não quero cair na mesmice das coisas que já escrevi e falei sobre o universo feminino. Contrariando minha tendência em ver sempre a parte boa de tudo e de todos, quero convidar à reflexão do que está embaixo do tapete. Então, este texto não é sobre as conquistas da mulher. Não é sobre feminismo e igualdade de direitos, mas é sobre o que a mulher ainda não conquistou.
Vivemos numa sociedade eminentemente machista. A mulher sofre pressões, opressões, humilhações, abusos, violência física e psicológica, assédio moral e sexual. Sem contar os feminicídios frequentemente noticiados pela imprensa. É crescente a participação da mulher na renda familiar, contribuindo também com a economia nacional, mas com salários inferiores aos homens na mesma função. A mulher não conquistou a igualdade de gênero e ainda sofre discriminação.
Segundo dados do IBGE, existem 22 milhões (38,7%) de domicílios que contam com a mulher como provedora e elas são responsáveis por 87% das famílias formadas por responsável sem cônjuge e com filho. O mercado da moda, estética e emagrecimento, a chamada indústria da beleza, desfruta dos lucros com a independência econômica da mulher e o desejo de consumo. Exageros ficam por conta da carência afetiva.
Embora a nossa sociedade machista tenha muita dificuldade em se comportar de forma respeitosa em relação ao papel da mulher na sociedade contemporânea, as próprias mulheres não se fazem respeitar, nesta altura da história. Diante de tantas oportunidades para avançarem em suas conquistas, fazem movimentos opostos, quando perdem a noção do bom senso desconstruindo a imagem de tantas pioneiras batalhadoras. A desigualdade de gênero existe e machuca. Mas não precisamos somar a isso, os danos da desconstrução. A mulher ainda não conquistou o respeito a si, quando expõe a sua imagem de forma vulgar, erotizada, objetificada. A mídia expõe a imagem da mulher da forma que convém aos interesses mercadológicos e infelizmente, há aquelas que se submetem a estes fins. Isso é triste!

Embora bastante decepcionada e machucada com as humilhações, discriminações e assédios que sofri (e ainda sofro) pelo simples fato de ser mulher, sinto orgulho por esta condição. Gerei filhos, fiz jornadas de trabalho duplas e triplas e aprendi a me fazer respeitar nas mais inusitadas e bizarras situações, mesmo que ainda longe da tão sonhada igualdade de gênero.
- Mas, Kátia, você? Como assim? – Pode perguntar o leitor (a).
Violência e agressões passivas acontecem diariamente nos melhores salões e nas mais cobiçadas salas do mundo corporativo. Não me sinto inferior nem superior a ninguém. Sou simplesmente um ser humano. Sou simplesmente uma mulher. E parafraseando uma das campanhas publicitárias, posso maquiar meu rosto, mas meus sentimentos, nem pensar! Tintim!

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga CRP 06/15951, Diretoria da Ego Clinica e Consultoria

domingo, 2 de dezembro de 2018

AS DORES NOSSAS DE CADA DIA





“Ali onde eu chorei,
Qualquer um chorava”
Volta por Cima – Paulo Vanzolini

A vida tem altos e baixos. Alegrias e tristezas.  Ingenuidade pensar que não vamos sofrer nunca por nada. E o quanto sabemos lidar com a dor e com o sofrimento, quando aparecem batendo na porta, sem avisar?
Muitas pessoas querem afastar a dor ou evitá-la. Mas, há quem acredite que as dores e o sofrimento são grandes motivadores para transformações.
O filósofo, escritor e poeta alemão Friedrich Nietzsche, que adorava escalar montanhas e apreciar a paisagem lá no topo, dizia que a vida se assemelha a uma escalada, que por sua vez, tem uma difícil trilha para se chegar até o topo. E para escalar e percorrer essa difícil trilha, haverá momentos de sofrimento e dor. Quem não quiser sentir dor, não quiser viver o sofrimento não vai ter a grande sensação de lá em cima, apreciar a beleza da paisagem, no topo da montanha. Ou seja, as alegrias e conquistas são decorrentes de dores e experiências de sofrimento.
Pacientes que tiveram câncer de mama, também já me relataram suas transformações para melhor, devido às experiências que tiveram no decorrer do processo de tratamento.
Quando a dor bater à sua porta (toc-toc-toc!), você pode negar a dor, fazer de conta que ela não existe. Pessoas assim, não falam sobre a dor que sentem, não querem fazer contato com a dor. A psicoterapia é algo que não as atrai justamente por causa disso. Imaginam que durante as sessões, mais cedo ou mais tarde, irão se lembrar de algo que causou ou poderá causar dor. Então desenvolvem habilidades para desviar o foco para vários comportamentos como: fazer uso abusivo de bebidas alcoólicas (beber para não pensar, beber para não sentir), consumir drogas, mergulhar em relacionamentos sem elaborar o luto do anterior. E mais: encher-se de atividades, se entupir de trabalho, de compras, de viagens, não pelo prazer que estas atividades podem proporcionar, mas como mecanismo de defesa para negar a dor emocional. Mas, esta é uma forma de não receber a mensagem que a dor trás.
Quando a dor bater à sua porta (toc-toc-toc!), você pode abraçar a dor, dar a ela espaço permanente na sua vida, torna-la sua companheira para sempre. Pessoas assim, falam sobre a dor o tempo todo, fazem tudo para propaga-la porque estão ancoradas nela. Passam a vida sofrendo, com mágoas e ressentimentos de algo que aconteceu e continua acontecendo na mente delas.  Alimentam a dor e como vítimas, passam a vida acariciadas pelo sofrimento. Também são resistentes à psicoterapia. Falam sobre suas dores, mas não com profissionais. Falam com amigos, vizinhos, colegas de trabalho, familiares, com muita habilidade para contar sobre a dor e justificar os motivos pelos quais a sente e a sentirá para o resto da vida.  Mas, também não observam a mensagem que a dor está trazendo. Então elas não conseguem aprender com a dor.
Quando a dor bater à sua porta (toc-toc-toc!), ao perceber o sofrimento, você pode perguntar: o que você traz para mim? Qual é a sua mensagem? O que você quer de mim? O que você quer me ensinar? Como você pode contribuir como mecanismo de mudança na minha vida? O que está por trás desta situação que me leva a você?
Pessoas assim, têm grandes chances de fazer contato com a mensagem trazida pela dor. Não negam, não justificam, não têm medo da dor.
As dores de amor, são um dos principais motivos que levam as pessoas à psicoterapia.  Geralmente descobre-se que a dor é decorrente do excesso de projeções sobre a pessoa amada. Constrói-se a imagem da pessoa de determinada forma e quando ela se mostra como verdadeiramente é, sente-se a dor da decepção. Mas quem construiu a expectativa, pode fazer da decepção, um reinício na busca de crescimento. Nossas escolhas estão relacionadas a ganhos, mas também a perdas que podem gerar dores.
Quando o que você espera da vida não acontece, lembre-se: o que importa não é o que acontece ou não acontece, mas o que você faz com isso.
Então, parafraseando a composição de Vanzolini, reconheça a queda, mas não desanime: levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima.
Siga em frente e seja uma pessoa melhor, não apesar das dores, mas por causa delas.



Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga CRP 06/15951 da Ego Clínica e Consultoria
17 997724890  www.katiaricardi.com.br 




segunda-feira, 23 de julho de 2018

RESSIGNIFICAR





“Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza, nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste. ”
Carlos Drummond de Andrade

Ressignificar é um processo de modificação do filtro pelo qual percebemos os acontecimentos. Podemos dar novos significados a eles a partir da mudança na percepção que temos do mundo. Consiste em perceber de uma nova maneira aquilo que já estava formatado no nosso sistema de valores e crenças. Quando mudamos o filtro, mudamos o significado.
Ao ressignificar, aprendemos a pensar e sentir de outro modo sobre os fatos da vida, com novos pontos de vista, levando outros fatores em consideração. Por exemplo, temos um copo com um líquido pela metade. Podemos colocar o foco na metade do copo que está vazia ou passar a perceber a metade que está preenchida com o líquido. Da escassez, mudamos a percepção para a abundância.
Nós percebemos as coisas como somos. O livro “Polyana”, um clássico da literatura, de autoria de Eleanor Porter, publicado em 1913, mostra a habilidade de ressignificar, através da protagonista da história. Polyana passa a praticar o jogo do contente, que consiste em perceber algo de positivo em suas experiências negativas. Neste jogo mental, ela evita a dor.
Há o perigo do polyanismo extremo, que seria a negação da dor, excesso de otimismo não realista, maníaco. Neste caso, a ressignificação torna-se doentia, patológica. Ocorre quando não delimitamos espaço, posicionando-nos de forma a evitar confrontos o tempo todo, aceitando e nos acostumando com os estímulos negativos. Isso pode acontecer quando, diante dos estímulos negativos que nos provocam dor, pensamos: a vida é assim mesmo, ruim com isso, pior sem isso, é o meu carma, deixa pra lá que é melhor.
Na minha prática clínica ouço muitas queixas de casais um tanto quanto acostumados com a dor da indiferença, da hostilidade, do erotismo em detrimento ao romantismo, apegados a muitos motivos para continuarem juntos e infelizes, sem considerar a possibilidade de qualquer tipo de ressignificação sobre o relacionamento. Seguem ambos com suas válvulas de escape para sobreviverem emocionalmente, com suas algemas invisíveis machucando a alma por não saberem lidar com suas dores relacionais.
Experiências dolorosas e traumáticas são tratadas através da ressignificação envolvendo o perdão e neste processo, a cura interna é atingida quando a pessoa consegue relembrar a experiência dolorosa e traumática de uma forma nova, percebendo os benefícios de tê-la vivenciado.
Diante de realidades sombrias, temos a possibilidade de conduzir a vida em outras direções, entendendo adversidades como aprendizado. Quando as coisas não acontecem da forma como desejamos, podemos pensar: qual é a mensagem que a vida me proporciona com isso? Neste processo, não existe fracasso. Ocorre sucesso ou aprendizado. É o que Eric Berne, psiquiatra canadense, propõe através de seu método de mudança positiva de conduta. Ao rever crenças, valores, decisões precoces, podemos abandonar um estilo de vida disfuncional e desenvolver um plano de vida realista e consciente, livre de Script e, portanto, ressignificado.
Podemos ressignificar sentimentos, quando por exemplo, nos desapegamos de um relacionamento. Como continuar investindo tempo e energia em algo que deixou de ser gratificante, prazeroso, recíproco? O relacionamento pode ser ressignificado e continuar existindo, porém em outro formato.
Ressignificamos propósitos e objetivos, quando desistimos de um projeto, uma faculdade, um curso, um emprego. Com consciência, abrimos mão de coisas que deixaram de ser importantes. Desistir de algo que não faz mais sentido não é um fracasso, e sim uma ressignificação. Muitos profissionais me procuram para fazerem orientação de carreira, buscando ressignificar a área profissional. São bem-sucedidos, mas não estão felizes na carreira que escolheram. Ou até mesmo, dentro da própria carreira escolhida, querem direcioná-la para outros caminhos.
A história de Viktor Frankl, criador da Logoterapia, é outro exemplo de ressignificação. Ele viveu na época dos campos de concentração nazistas, sendo prisioneiro em um deles. Escreveu livros nesta época e acreditou em dias melhores. “Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se”, dizia ele.
Ressignificar implica em sair da vitimização, responsabilizar-se por sua vida, suas decisões. Você escolhe até onde quer ir na toca da raposa.


Kátia Ricardi de Abreu, Psicóloga CRP 06/15951, especialista em Análise Transacional, diretora da Ego Clínica e Consultoria. 17 997724890 (whatsApp)


domingo, 11 de março de 2018

SOFRIMENTO E DOR EMOCIONAL




“Enfim, de tudo o que há na Terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri”
Djavan

Emoções negativas não fazem bem à saúde. Mas que elas existem, elas existem. Impossível não sentir desconforto por alguma situação ocorrida, alguma palavra ou atitude.
A convivência em grupo, no ambiente de trabalho, familiar, social ou conjugal, nos expõe vez ou outra a sentimentos indesejáveis, que descem quadrado goela abaixo, mesmo que o relacionamento seja sólido o suficiente para sobreviver às dores da alma que surgem. Tais dores têm variações na sua intensidade, considerando a estrutura psíquica de cada ser humano. O mesmo estímulo pode ser recebido de forma diferente por cada um. Aquilo que não afeta a um, pode ser traumático para outro.
Vamos falar das dores que causam grande impacto. Aquelas dores que sangram invisivelmente. Temos que falar baixinho à noite com a cabeça no travesseiro no escuro do quarto: vai passar, vai passar, vai passar... e parece que não vai passar nunca!
Nossa estrutura psíquica, quando fortalecida, poderá se sustentar nestes momentos com maestria, tirando proveito das lições e se reformulando, se lapidando, com enfrentamento e coragem para adquirir compreensão e discernimento, clareza e consciência. As perguntas que podem ajudar: como cheguei a isso? Como posso seguir adiante? Como me posicionar diante de mim? O que aprendi com esta situação?
A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional quando entramos em reflexões, diálogos internos que podem nos levar à mudanças e transformações. Finalmente, quando nos lembramos de algo que nos causou dor sem sentir dor, chegamos ao perdão. Como é gostoso esta parte: lembrar de algo dizendo: quase morri por causa disso... E em seguida, soltar uma gargalhada que confirma a resolução interna. Quase morri significa que sobrevivi. Minha estrutura psíquica me salvou.  Mas até chegar a esta parte – da gargalhada – temos um processo interno a ser elaborado que consome muita energia, atinge a produtividade, porque a elaboração interna interfere no raciocínio lógico e contamina o pensar. Dias nublados na alma, sorriso amarelo e olhar apagado, distante, úmido. Lágrimas invisíveis ou não, tristeza escancarada e a esperança de que dias melhores virão, para não se entregar na amargura. E alguém morre por causa disso? Podemos dizer que sim, uma vez que, morrer “por dentro”, lentamente, ruminando cada lembrança e revivendo cada momento de dor, pode desencadear doenças físicas que levarão ao longo dos anos, à morte. As dores da alma não costumam ser qualificadas até mesmo por quem as sente.
Mágoas e ressentimentos servem para prolongar o processo da dor, pois impedem de assumir a responsabilidade pelos movimentos que fizemos nos relacionamentos para que tudo acontecesse como aconteceu. Não somos vítimas! Fazemos nossas escolhas. Escolhemos as pessoas com quem nos relacionamos, os grupos aos quais pertencemos e muitas vezes temos dificuldade em aceitar posturas diferentes, que não correspondem com nossas expectativas e até mesmo com nossos valores.
Impactos emocionais nos enfraquecem ou nos fortalecem. Você decide o que escolher. Torço para que sua escolha seja: Xô sofrimento! #partiu ser feliz! E tudo nascerá mais belo/O verde faz do azul com o amarelo/O elo com todas as cores/pra enfeitar amores gris – Djavan.

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga - CRP 06/15951
www.katiaricardi.com.br 


Publicado em 11/03/2018 na Revista Bem-Estar, Diário da Região






quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

PARA VOCÊ MEU QUERIDO...2018

Para você, meu querido... 2018
Eu ofereço minha garra, acordando cedinho como de costume, disposta e entusiasmada, apreciando os pássaros no flamboyan anunciando a alvorada, acreditando que todos os 365 dias trarão oportunidades para meu crescimento e desenvolvimento na Terra.
Eu ofereço minha disciplina e dedicação em tudo que fizer, colocarei o melhor de mim em cada fração de segundo do tempo em cada dia; produzirei e descansarei para continuar a produzir seja lá o quê me for enviado para fazer em benefício do meu próximo.
Eu ofereço minha fé na sinceridade e autenticidade das pessoas que cruzarão no meu caminho, prometendo valorizar seus pontos fortes vez que elas também farão o mesmo em relação a mim. Se não houver esta reciprocidade, ofereço minha capacidade de compreendê-las mesmo assim.
Eu ofereço meu perdão a todas as minhas falhas, faltas, pisadas de bola, mancadas, gafes, e todo o tipo de desconforto que possa aparecer pela frente. Perdão a mim, perdão ao outro, perdão a tudo incondicionalmente, considerando que somos caminhantes aprendizes na estrada da evolução.
Eu ofereço minha alegria, minha tristeza, e com elas todos os outros sentimentos genuínos que me possam surgir, tendo em vista este meu perfil de intensas e profundas emoções e aguçada sensibilidade aos estímulos que chegarão até mim.
Eu ofereço minha capacidade de pensar, sentir e agir, para gerar energia positiva neste Universo, bem-estar aos que de mim se aproximarem, inspiração aos que em mim se apoiarem.
Eu ofereço minha antecipada gratidão a todas as experiências que viverei, porque as transformarei em aprendizado e nelas me ancorarei para ser uma pessoa melhor.
Eu ofereço meu colo, para amparar aos que dele necessitarem, minha amizade para rir e chorar junto com aqueles que quiserem se envolver na minha existência, sem me julgar, sem me cobrar nada, apenas desfrutar da minha presença envolvendo-me na sua, exatamente como sou.
Eu ofereço meu intenso e profundo amor, depositado em tudo o que faço e farei e que sou e que serei, como instrumento para a transformação de almas, como bálsamo para tantas feridas que me chegam para curar através do meu labor.
E se findos os 365 dias eu estiver na Terra, brindarei e dançarei, cantarei e comemorarei a trajetória percorrida neste ciclo, como faço agora, com meu velho ano, 2017, que tanto aprendizado me trouxe!
2018, eu te ofereço a mim em toda a minha plenitude!
2017, sou grata por ter vivido dias de abundância e paz, silêncio e luz, esperança e fé,  contando sempre com Jesus!

Feliz Ano novo, adeus Ano velho! 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

CAFÉ COM TROVOADAS!


5:36 acusa o relógio. Na cozinha, de banho tomado, cabelos molhados ainda, sento-me para aquele momento predileto do dia. Lá está ele me esperando, me convidando, me seduzindo, me preparando para um dia inteiro de prazer. Cheiroso, saboroso, temos uma atração química fantástica. Não consigo imaginar minha vida sem ele. Estou falando do meu café matinal. Café mesmo, aquele coado na hora, com as espuminhas e a fumacinha saindo do copo. Sim, no copo acho mais gostoso do que na xícara. Mas se for na xícara, tomo do mesmo jeito.
De olhos fechados e quase de joelhos para sorver o primeiro gole, estremeço com um estrondo já esquecido. Parece trovão misturado com barulho de chuva. Em tempos de seca, terra árida, poeira, tosse e companhia, ouvir estes sons emparelhados com o sabor do café, é algo fantástico. O milagre do dia – pensei. A chuva? O café? Os dois.
Mas muitos outros milagres estavam ainda por acontecer. O café, as trovoadas e a chuva, foram apenas a introdução para uma série de acontecimentos comuns, normais, rotineiros que, revestidos de amor em cada segundo, se transformam em milagres da vida cotidiana.
E assim podem ser a sua, a minha, as nossas vidas. Ficamos aguardando as férias, as viagens, algo que saia da rotina e do convencional quando temos diante de nós cada segundo que não se repetirá e que talvez não estejamos dando a ele a honra de nos fazer sentir bem-estar diante da sua simplicidade.
A ansiedade, uma das principais dificultadoras do bem-estar, empurra a mente para o futuro sem permitir a conexão com o momento presente, o contato com a realidade interna e externa no aqui e agora. Interrompendo frases, sobrepondo ideias, chacoalhando as pernas, tamborilando os dedos, apertando os dentes, o ansioso atropela a si e perde o espetáculo de vivenciar seus próprios milagres. Segundo a Organização Mundial de Saúde, são 33% da população mundial. No Brasil, a terceira principal razão de afastamentos do trabalho de acordo com a Previdência Social, que realiza cerca de 200 milhões em pagamentos a benefícios anuais, a ansiedade vem tomando conta da vida de pessoas que desprezam a importância dos cuidados preventivos, os primeiros sinais de desconforto ou um simples tratamento e acabam desenvolvendo o distúrbio que coloca o Brasil sempre entre os primeiros da lista da OMS.
Desdobrada em muitos males como fobias e alguns tipos de transtornos como:  do pânico, obsessivo-compulsivo, de estresse pós-traumáticos, de ansiedade social ou de ansiedade generalizada, a ansiedade se tornou uma das principais vilãs do mundo moderno. O excesso de urbanidade e a privação social, chegam a inviabilizar uma vida que poderia ser repleta de prazeres.
A ansiedade traz o amanhã para o hoje e massacra as experiências tão bem preparadas pelo Universo para um encontro intenso. Pulsa a vida, na sua magnitude real enquanto a desprezamos mergulhados em nossa fértil imaginação sobre como será daqui a pouco.
Certo dia perguntei a uma amiga: - Como você está? E ela me respondeu: - Estou bem, “agora”. Em seguida metralhei-a com mais três perguntas: - Mas o que houve? Porque “agora”? Aconteceu alguma coisa? Calmamente, ela me respondeu: estou bem “agora”, porque não posso dizer como estarei nos próximos minutos. Estou conectada com meu bem-estar neste momento da sua pergunta – disse ela. Ah, que alívio – pensei. Ela está bem. Não importa o ontem nem o amanhã, ela está bem “agora”. E isso basta.
Aprender a ficar na realidade presente e desfrutar é um exercício que fiz às 5:36 quando eu estava sorvendo meu café ao som de trovoadas. Foi o registro de um dos meus milagres da vida cotidiana, que compartilho agora com você, amigo leitor, convidando-o a colocar sua mente na beleza de seus momentos presentes.
Planejar o futuro é saudável. Vivê-lo como se fosse o presente, é impossível. “Não apresse o rio. Ele corre sozinho” (Barry Stevens).
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga CRP 06/15951-5 da Ego Clínica

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domingo, 20 de agosto de 2017

SEGUIR, NÃO IR, LIVRAR, AFASTAR

publicado na Revista Bem-Estar, jornal Diário da Região 20 agosto 2017



Seguir Com, Não Ir a parte Alguma, Livrar-se ou Afastar-se de alguém, são as quatro categorias de operação social dinâmica no final de cada encontro breve ou longo entre as pessoas, de acordo com Franklin Ernst Jr. Tendo como pilares as Posições Existenciais que Eric Berne criou para entendermos o que uma pessoa como eu está fazendo em um mundo destes com pessoas como você, estas operações ajudam a compreender os relacionamentos interpessoais e os vários estados de sentimentos que a pessoa pode experimentar em diversas ocasiões de sua vida.
Seguir Com, sugere ir em frente, continuar investindo no relacionamento, com credibilidade em si e no outro. Significa compreender e aceitar as imperfeições próprias e alheias e apesar dos pesares, não desistir. Contornar, alinhar, discutir a relação, perdoar, recomeçar quantas vezes for necessário, partindo sempre da premissa de que cada um tem suas limitações, mas acima delas, há o desejo de estarem juntos. Casais, amigos, namorados, ficantes, não importa qual é o tipo de relacionamento, podem ter crises, conflitos, discordâncias, e podem superar tudo se ambos desejarem muito o prosseguimento deste relacionamento, que pode mudar de modalidade. Por exemplo: não estarem mais casados, namorados, ficantes, mas continuarem amigos.
Não Ir a parte Alguma, ocorre quando não há mais chances de qualquer tipo de investimento de tempo, energia, afeto, nada, nada, nada. Significa desistir de se relacionar por falta de credibilidade em si, no outro e em qualquer relacionamento. Não confundir com a decisão consciente e saudável de desistir ou não querer entrar em um relacionamento por outras razões.  Amargura e solidão, farão parte da vida de pessoas que não acreditam na capacidade de amar e de serem amadas, muitas vezes disfarçadas de um discurso contrário a isso, mas de atitudes que boicotam as possibilidades de aproximações e relações duradouras. Por exemplo, a pessoa recusa todos os convites do outro para um encontro, porque está com dor de cabeça, ou porque tem que cuidar do gato, não é um bom dia para sair porque vai chover e assim por diante, até o outro desistir. Quando os convites cessam ela pensa que o outro não queria nada mesmo, se quisesse, teria insistido mais.
Livrar-se do outro inclui buscar motivos, uma lista de razões para justificar porque o outro não serve, não vai dar certo. Há a crença de que o outro não está à altura (e nunca ninguém estará!), não faz parte do seu mundo real ou idealizado. A pessoa se sente “o cara” e nunca vai encontrar outro “cara” que possa merecê-la. Relacionamentos assim, podem dar certo quando o outro se adapta a esta desigualdade, mas não vai durar muito tempo porque chega a hora em que, apesar da adaptação, ocorre a expulsão. Geralmente, livra-se do outro de forma desqualificadora, arrogante, insensível, sem muitas ou sem alguma explicação. O outro que vá catar os caquinhos que sobraram da sua alma e se tiver um pouco de autoestima, poderá se reconstruir.
Afastar-se do outro é o inverso ou o complemento de Livrar-se do outro. Trata-se da desistência do relacionamento por aquele que está na posição de não ser “o cara”. A pessoa se afasta por não conseguir conviver com este sentimento constante de deixar a desejar. Ela se sente inferior e este sentimento de inferioridade a leva a abrir mão do relacionamento para não sofrer mais. Pode até doer, mas o alívio ao vivenciar aquela sensação de menos valia, é a compensação.
Recebo diariamente pessoas em meu consultório em busca da primeira opção em seus relacionamentos: Seguir Com. Mas isso não depende apenas de uma das partes. Para um relacionamento ser saudável, todos os envolvidos precisam investir na busca de suas resoluções internas, na compreensão da perspectiva do outro, na escuta qualificada, na presença intensa, inteira, acolhedora, afetuosa. Relacionamentos são tesouros que brilham na alma e cujo valor não tem preço. Fazem nossa vida valer a pena e nossa boca se abrir em enorme sorriso quando estamos diante de pessoas às quais sabemos que podemos Seguir Com. Finalizo com Carlos Drummond de Andrade: “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.

KÁTIA RICARDI DE ABREU
PSICÓLOGA CRP 06/15951-5 Especialista em Análise Transacional
17 997724890 Ego Clínica e Consultoria


terça-feira, 4 de julho de 2017

A VIAGEM É CURTA!


Recebi o texto abaixo de um amigo, e repasso para vocês. Desconheço o autor. Cheio de verdade, faz-nos refletir sobre as bobagens que nos tiram energia e nos afastam na vida cotidiana, por falta de maturidade psicológica e espiritual. Então, lá vai:


Uma jovem estava sentada num transporte público quando uma senhora, mal humorada e velha, veio e sentou-se ao lado dela batendo-lhe com suas numerosas sacolas Uma pessoa sentada do outro lado, ficou injuriada com a situação e perguntou à moça por que ela não reclamou ou disse algo para a velha senhora!

A moça respondeu com um sorriso: - Não é necessário ser grosseiro ou discutir sobre algo tão insignificante, nossa jornada juntos é tão curta.

Se cada um de nós pudesse perceber que a nossa passagem por cá tem uma duração tão curta... Por que escurecê-la com brigas, argumentos fúteis, não perdoando os outros, com ingratidão e atitudes ruins?

Isso seria um grande desperdício de tempo e energia!

Alguém quebrou seu coração? Fique calmo, a viagem é tão curta...

Alguém lhe traiu, intimidou, enganou ou humilhou? Fique calmo, perdoe, a viagem é tão curta...

Qualquer sofrimento que alguém nos provoque, vamos lembrar que a nossa jornada juntos é tão curta...

Sejamos cheios de gratidão e doçura. A doçura ´´e uma virtude nunca comparada ao caráter mau ou covardia, mas melhor comparada à grandeza.

Nossa jornada juntos aqui é muito curta e não pode ser revertida...

Ninguém sabe a duração de sua jornada. Ninguém sabe se terá que descer na próxima parada.

Vamos, portanto, acalentar e manter a doçura e amabilidade com oos amigos e familiares! Vamos tentar nos manter calmos, respeitosos, gentis, gratos e perdoar uns aos outros.

Se eu fiz algo que pudesse ter machucado você, peço perdão. A viagem aqui na Terra, é tão curta!



quarta-feira, 15 de março de 2017

ASSÉDIO MORAL



A Dra. Margarida Barreto, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, defendeu tese de mestrado pesquisando 2.072 trabalhadores das indústrias química, plásticos, farmacêuticos e cosméticos que sofreram assédio moral (42% deles). Segundo ela, o assédio moral está sempre presente em relações hierárquicas de poder em que há o autoritarismo. Normalmente é caracterizado por atos de intimidação e práticas de humilhar, de rebaixar, de intimidar o outro. São práticas que se realizam, se concretizam no local de trabalho. Que individualizam o problema em uma só pessoa, tratam um indivíduo como incapaz, quando na verdade isso é resultante de condições outras de trabalho, envolvendo uma série de outros fatores, principalmente a pressão para: trabalhar, produzir, dar qualidade em pouco tempo. 

Hoje, no mundo do trabalho, há menos pessoas trabalhando muito mais. É freqüente Empresas fazerem cortes de funcionários para conter despesas e aumentar suas exigências em termos de produtividade para os que ficam. As metas são estabelecidas pelos chefes, porém, estes não escolhem estratégias para que os trabalhadores atinjam as metas estabelecidas. Muitos acabam adoecendo com as exigências irreais. Alguns chegam a tentar o suicídio. A Dra. Margarida alerta para o aumento do número de casos de assédio moral. Segundo ela, esse aumento tem sido marcante no aparecimento de doenças, de manifestações depressivas, observadas através de sua experiência como clínica médica há trinta anos. Eu concordo com a Dra. Margarida. Nestes vinte anos, o número de queixas que trazem as pessoas para a psicoterapia aumentou consideravelmente em torno das relações desumanas no trabalho, dentre elas, o assédio moral. Mas observo que as pessoas têm uma tendência à auto-culpa, o que é muito comum nesta situação. A Análise Transacional oferece instrumentos eficazes onde as vítimas de assédio moral, aprendem a sair do alvo do agressor. Porém, este agressor elegerá um outro alvo. Somente através de um trabalho com a própria Empresa, mais especificamente com as chefias, é que se pode neutralizar este “vírus”, que se espalha dia a dia pelas organizações, afetando as relações no trabalho e adoecendo pessoas que, muitas vezes, não conseguem discernir que o problema é estrutural e não, individual. Infelizmente, os chefes não conseguem discernir, por sua vez, que estão contribuindo para a queda na produtividade, e para muitos outros danos, inclusive financeiros para esta Empresa.

Observo, na minha prática clínica, que o assédio moral não ocorre apenas de chefe para subordinado. Ocorre também entre subordinados, que querem se destacar perante o chefe, perante os outros ou perante eles mesmos. Por exemplo: o funcionário que tem iniciativa e realiza uma ação, com 99% de acertos, pode ser assediado moralmente por aquele seu companheiro de trabalho, que se aproveita do 1% que ele próprio denomina de “erro”, para massacrar seu colega de trabalho, como se ele não tivesse feito nada de bom. Esse massacre é sutil, é no pé do ouvido, dia após dia, com o chefe ou com os companheiros. Aos poucos, aquele indivíduo que fez algo que merece reconhecimento acaba se tornando o “bode expiatório”. Principalmente, quando a competência dele incomoda. É um conjunto de jogos de poder. Quando o assédio moral não atinge o assediado profissionalmente, a tendência é partir para o ataque na vida pessoal. Surgem “fofocas” sobre o comportamento do indivíduo de tal forma que nada se prova, mas o estigma se instala e só o tempo poderá apagar ou não os comentários feitos não se sabe por quem. O que o assediado pode fazer? Existem três alternativas:

Resistir. Buscar solidariedade do grupo. Esta é a alternativa mais saudável. 
Demitir-se, procurar outro emprego, por não encontrar apoio dentro do grupo, dentro da Empresa. Considero esta alternativa saudável também. A Dra. Margarida recomenda que o funcionário vá ao sindicato da categoria, Centro de Referência do Trabalhador, que são ligados às Secretarias de Saúde do Estado ou do Município, Ministério Público ou mesmo o Conselho Regional de Medicina, dependendo da esfera do assédio moral. 
Continuar trabalhando por medo de não encontrar outro emprego e ao mesmo tempo, com medo de perder este emprego e nesta posição, acaba adoecendo.

A Dra. Margarida relaciona as principais doenças causadas pelo assédio moral pesquisadas por ela: mais de 50% dos casos são manifestações depressivas, hipertensão, dores generalizadas pelo corpo, tensão no pescoço, gastrite – distúrbios digestivos – e distúrbios do sono. As pessoas pesquisadas mostram o resultado desse adoecer com exames clínicos. Tudo em conseqüência do trabalho.

Como fazer a prevenção do assédio:

Segundo a Dra. Lys Esther Rocha, que é do Departamento de Medicina do Trabalho da Faculdade de Medicina da USP e defendeu tese de doutorado sobre o stress no trabalho, há instrumentos dentro das Empresas que poderiam ajudar de alguma forma, no sentido de estar discutindo as condições no trabalho; até que ponto elas são viáveis e quais as conseqüências disso: são as Comissões de prevenções de acidentes e as comissões de qualidade de vida no trabalho.O importante é entender que o problema não é do indivíduo, mas das condições de trabalho que permitem que chefes e/ou outras pessoas que realizam o assédio moral, tenham espaço para isso. Ela exemplifica: “nas Empresas onde a qualidade do trabalho é muito importante, tipo indústria química, nuclear, aviação, onde o stress determina um risco grave em termos de responsabilidade, estes problemas têm sido rapidamente resolvidos”.Então, por que não resolver em todas as outras Empresas? Afinal, o mundo corporativo não está em busca de qualidade? Não está querendo lucros? Os programas de qualidade total consideram todas as funções importantes e de responsabilidade dentro do processo. Penso que a saúde e a qualidade de vida do cliente interno (funcionários) deveria ser levada mais a sério, pelos dirigentes das Empresas, até mesmo, para que eles possam obter os resultados financeiros desejados. 

O mais interessante, é que muitas Empresas não conseguem enxergar quanto perdem com isso. A diretoria pensa em produção, em metas, mas não tem visão sobre o quanto as relações no trabalho interferem no processo. Os profissionais da área da saúde estão recebendo milhares de pessoas estressadas, que começam a apresentar queda na produtividade, depressão e até enfarto. Segundo a Dra. Lys, a saída para não responder às agressões e humilhações tem sido: academias de ginástica,dança, etc. Penso que pode ser como uma estratégia para canalizar as emoções.

Vamos torcer para que as Empresas possam um dia compreender que a produtividade está diretamente ligada a um ambiente de trabalho sadio, e assim, dar a devida importância para as relações humanas entre os seus funcionários. Com certeza, os lucros serão maiores em todos os sentidos, para todas as partes. 

Quem pratica assédio moral, no meu entendimento, está trabalhando contra a própria Empresa, muitas vezes com a conivência das pessoas que estão na cúpula dela. Isso seria burrice? Prefiro acreditar que é apenas falta de informação. 

Kátia Ricardi de Abreu é Psicóloga especialista em Análise Transacional, Membro Certificado Clínico pela ALAT e pela UNAT-BRASIL, atua na área clínica, é  consultora de empresas e escritora

Este artigo está publicado em www.katiaricardi.com.br e vários sites autorizados pela autora

quarta-feira, 8 de março de 2017



A AMÉLIA DE HOJE 

“Que, finalmente, o outro entenda que embora às vezes me esforce, não sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa ... Uma Mulher!” Lya Luft


            Ter sucesso profissional sem deixar de ser excelente dona-de-casa, mãe exemplar com filhos exemplares, amante fogosa com um corpo impecável, rosto sem rugas e belas pernas. É a armadilha perfeita. A mulher que busca atingir todos estes quesitos vai encontrar muita frustração e conviver com muita culpa.
            Liberdade já não é mais problema externamente. A mulher pode fazer tudo o que um homem faz. A briga agora, é outra: a conquista da liberdade interna, que só pode ser concedida pelo superego.
            A Amélia de hoje não é perfeita, não dá conta de tudo e muitas vezes se perde e se confunde com estes andróides padrões de beleza que muitas vezes, levam ao exagero; desajeitada numa imagem corporal idealizada (por quem?), corre o risco de se desconectar de sua essência, privando-se daquela que realmente é. Estressada, agoniada, deprimida quando não respeita seus limites e fraquezas, ela busca uma carreira meteórica em detrimento da qualidade de vida. Não satisfeita em dar o melhor de si, embarca em cobranças irrealistas e estabelece competições absurdas, querendo quebrar o próprio recorde da polivalência perfeita.
            A escritora e psicoterapeuta Lídia Aratangy propõe um estilo de vida realista onde a mulher é dona de si, dona de sua história e sabe se ouvir para traçar o seu destino, de tal forma que não se submete a uma vida olímpica e perfeita. Dá o melhor de si para que o mundo seja melhor, sem se esquecer que é uma simples mortal, dotada de fraquezas e limitações.
            A escritora nos lembra que muitas bandeiras já foram erguidas pela mulher através dos tempos para romper barreiras e conquistar espaços no mundo e convida as mulheres a hastear agora, a bandeira da trégua e do descanso, para olhar para a vida com orgulho do que está conseguindo fazer, reconhecer o que já conquistou e caminhar em frente respeitando seu ritmo, que não é lento; é simplesmente humano. A Amélia de hoje pode conquistar a sua própria tolerância e assim, ser respeitada pelo outro, lembrando-o de que chegou a sua vez do quebra-encanto. A mulher já compreendeu, há muito, que não existem príncipes encantados (ou ainda há quem acredita nisso?) Agora, é a vez dos homens compreenderem que não existe a mulher maravilha.
            Oxalá destituídas de onipotência possamos agendar compromissos do tamanho de nossas pernas, considerando o dia com 24 horas ao invés de cobrarmos as pendências resultantes de uma voracidade em produzir muito mais do que nossa capacidade humana nos permite. Definitivamente, não está mais na moda ser workaholic (e olha que eu já fui - mas consegui me curar!). Ser competente também é conquistar o caminho do equilíbrio, de tal forma que a vida se torna pacífica, apesar de todos os surpreendentes desencontros e variáveis desagradáveis que até mesmo a natureza está nos proporcionando.
            Na bolsa da mulher, indispensável ainda é o batom que tem que dar espaço agora também para o filtro solar. No coração, indispensável é a ternura e a sensibilidade para perceber desejos e necessidades, acompanhados de sua impotência para atender a todos eles.

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga Clínica especialista em Análise Transacional, Consultora de empresas e escritora.

terça-feira, 7 de março de 2017


MUITO ALÉM DAS FLORES...

Embora todo o arsenal de informação globalizada e tecnologicamente acessível em nossos tempos, há quem pense que o Dia Internacional da Mulher é um dia comercial, como o dia das mães, dos pais, dos namorados...
O dia 08 de março vai muito além das flores ou bombons. Trata-se de uma data histórica, onde 129 operárias perderam a vida num conflito com forças policiais nos Estados Unidos, em 1857 porque fizeram uma manifestação grevista em prol da redução da jornada de trabalho e do direito à licença-maternidade. O fato inspirou o filme hollywoodiano, cuja protagonista foi vencedora do Oscar por interpretar a operária Norma Ray.
Longe de querer ser feminista, ressaltar as conquistas da mulher através dos tempos tornou-se motivo de orgulho, principalmente quando sentimos na pele, em pleno século XXI, as manifestações veladas da discriminação (ainda!). A sutileza é grande, porém, não escapa à percepção feminina.
As características psicológicas e emocionais típicas do sexo feminino equalizam um estilo produtivo que deixa um resultado visivelmente positivo no cenário mundial:
A indiana Indira Gandhi, assassinada em 1984, foi presidente do Congresso indiano, primeira-ministra da Índia, sendo a primeira mulher a ocupar um cargo de chefe de governo numa sociedade de base patriarcal. Margaret Hilda Roberts Thatcher tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha e a primeira a liderar uma nação no Ocidente. A médica pediatra Verônica Michelle Bachelet foi eleita presidente do Chile e a física Ângela Merkel, desde 2005 é a primeira mulher a ocupar o cargo de chanceler da Alemanha. Temos também a presidente liberiana, Ellen Johnson-Sirleaf, primeira chefe de estado de um país africano. Nancy Pelosi é a segunda pessoa na linha sucessória presidencial dos Estados Unidos e entrou para a história americana em janeiro de 2007 ao se tornar a primeira mulher a presidir a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Braço direito do Presidente Bush, a secretária de Estado Condolezza Rice é quem lida com a parte internacional do governo norte-americano. Sem contar Hillary Diane Rodham Clinton, primeira mulher a tomar posse como senadora pelo estado de Nova York; mesmo depois de todos os problemas conjugais expostos ao mundo, preferiu não entrar no papel de vítima e ficar para a história como coitadinha. Ela buscou recursos para a pesquisa do câncer de mama e vacinas infantis e recebeu prêmios Fundação Humanitária Elie Wiesel e o Prêmio Martin Luther King em função do trabalho social desenvolvido.
Em terras tupiniquins, a mulher ocupa 13% dos cargos de direção, 41% da População Economicamente Ativa, 40% do mercado de trabalho, sendo que mais de 25% das famílias brasileiras são sustentadas por mulheres. Ainda, temos aquelas que dão reforço ao orçamento com trabalhos informais e aquelas que renunciaram a uma carreira profissional para serem o suporte para os homens irem à luta.
Este é o frágil sexo forte, que “todo mês sangra”! (Rita Lee teve sua música censurada durante muitos anos por causa destas três palavras inseridas na letra da música “Cor de Rosa Choque”).
É expressiva a contribuição da mulher na família e no trabalho, com seu perfil conciliatório.
“...Por isso, não provoque a cor de rosa choque.
Não, não, não provoque”... (Rita Lee)

Kátia Ricardi de Abreu, Psicóloga Clínica Analista Transacional, Consultora de Empresas e escritora.

sábado, 4 de março de 2017

EX



Ex-namorado, ex-marido, ex-esposa, ex-presidente, ex-funcionário, ex-ficante, ex-sogra, ex-isso, ex-aquilo. Uma das coisas mais difíceis é ser ex. Saber sair de cena com dignidade, equilíbrio e categoria.
Nas relações amorosas, ser ex é um verdadeiro teste de diplomacia. Já vi gente criar perfil fake para seguir o ex. O outro extremo também acontece: ignorar o ex, fingir que não o conhece. Não dá para se comportar como se a pessoa nunca tivesse feito parte da vida. Por mais traumático que tenha sido o relacionamento ou o rompimento, um dia a coisa foi boa, senão não teriam ficado juntos por algum tempo. O amor acabou (mesmo?), mas o respeito, a consideração, pode continuar e esta é a arte de ser ex.
Que coisa feia quando a pessoa sai falando para quem quiser ouvir, sobre aspectos da intimidade do ex. Conta seus defeitos, expõe seus pontos fracos mais constrangedores, diz que ele tem chulé, mau hálito e disfunção erétil. Que ela tem cabelo postiço, cheiro de bacalhau e ronca à noite. Barbaridade!
Os segredos do casal devem permanecer entre o casal mesmo que o relacionamento acabe. Abra o dicionário e procure pelo verbo “acabar”. Lembre-se de que o que acabou foi apenas esse relacionamento. Outros virão. E o principal: a vida não acabou. Poderá ficar melhor ainda com as lições sobre o que não fazer e o que fazer para ter uma relação amorosa duradoura.
Ciúme de ex é bizarro. A mulher não pode cumprimentar o ex, porque o namorado atual briga com ela, no estilo “teu passado te condena”. O homem tem que jogar fora o rolex e a caneta Montblanc presenteados pela ex porque a namorada atual é só chilique quando vê esses objetos. Ora, se ocorrem problemas com o ex, é porque ele ainda é! A separação física pode ter ocorrido, mas a psicológica, ainda não.
Ex-funcionário também pode dar “bafão”, sair falando mal da empresa e das pessoas com quem trabalhou. Jogar sinuca no boteco contando as intimidades corporativas e passando informações gratuitas, tomar cerveja com os ex-colegas de trabalho para atualizar as fofocas. Nada mais antiético!
A mídia revela diariamente o quanto é difícil ser ex. Prestem atenção nas declarações de ex-presidentes, ex-alguma-coisa na área política. É difícil voltar a ser um simples mortal depois de tantos holofotes, tapetes vermelhos, festas com mesas cativas, destaques em revistas e jornais e todos os aparatos do poder.
Ex-amigo é uma tristeza. Penso que amigos nunca deixam de ser amigos. Podem se afastar, se separar, se distanciar, se estranhar. Rompimento definitivo na amizade é sinal de decepção das grandes, quando se descobre que aquela criatura parecia ser uma coisa e era outra. O ex-amigo costuma deixar profundas cicatrizes na alma.

Passageiros chegam, passageiros partem na estação da vida. Assim também é no coração de cada um de nós. Reavaliamos e reformulamos constantemente nossos vínculos. Abrimos e fechamos ciclos de convivência. Como fazer isso de forma madura e saudável? Acenar sorrindo, despedir-se mansamente, sem amarguras faz parte da arte de ser ex.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O LADO B DO PODER

Em uma manhã encalorada deste verão, pensei em Claude Steiner ao esbarrar meus olhos em uma de suas obras repousando na minha estante. Algumas horas depois, constatei que estávamos exatamente no dia do nascimento deste mestre querido. Enviei uma tímida mensagem, cumprimentando-o, encorajada pelas respostas sempre gentis que ele me dirigiu em outras ocasiões. Mas esta mensagem ele não pôde responder. Naquele dia, Steiner estava às margens do lago em seu rancho em Ukiah, Califórnia, rodeado pela família, despedindo-se da sua passagem pela Terra. Segundo sua filha Mimi, ele se foi “olhando para a água, ouvindo música, chorando e rindo a beleza da vida”.
Voltei até a estante e peguei aquele livro. Com as folhas amareladas e com o texto grifado até não poder mais, a primeira página tinha minha letra reproduzida pela esferográfica registrando que eu o havia adquirido em 1988 em um dos Congressos de que participei. Dentro do livro, encontrei um registro mais precioso: minha foto com Steiner, em encontro que tivemos em 1992. Folheando e lendo alguns parágrafos grifados, observei o quanto este mestre querido esteve muito além do seu tempo. Como são atuais suas ideias publicadas na década de 80, sobre o uso do poder para mudar padrões de relacionamento interpessoal, grupal e social de forma cooperativa, pacífica e construtiva: o outro lado do poder.
Jogos de poder são transações tóxicas, desonestas, manipuladoras, para fazer com que as pessoas façam o que o jogador quer que elas façam e ainda (pasmem!), tendo a sensação de gostar de fazê-lo.
Steiner ensinou a identificar e compreender os Jogos de Poder. Mais que compreender, ele ensinou a responder aos Jogos e manipulações desbancando o abuso do Poder nas relações sociais, políticas, familiares, conjugais.
 O uso e o abuso do Poder acontecem de forma sutil, suave, elegante. Fingir não ter poder algum é uma forma requintada de usar o Poder.  O abuso requintado do Poder é a capacidade de persuadir o outro a desejar o que você deseja.
Há uma crença na qual, Poder e Sucesso andam juntos. Neste cenário, acrescenta-se a Competição: para se sentir poderosa, a pessoa precisa minar o poder do outro. Este mundo tendencioso é lamentavelmente bidimensional – só existem duas alternativas: tudo ou nada, branco ou preto, isto ou aquilo, ganhar ou perder, você é meu amigo ou é meu inimigo, está no meu time ou contra mim, faz tudo que eu quero ou não me ama. Através da intimidação apoiada no medo das pessoas e na exploração da culpa, das ameaças sutis e veladas às agressões e torturas, o jogador também pode fazer uso das mentiras descaradas ou segredos e meias-verdades, mexericos e boatos.
Sentimentos de amor e desejos de dominar os movimentos do outro (controle) são confundidos nos relacionamentos conjugais gerando ciúme e posse.  O uso e abuso de poder nas relações conjugais ocorrem sutilmente, protegidos pela fachada de “casal 20”, beijocas, elogios mútuos e tudo o mais. Agressões passivas, controle exacerbado, cobranças. Ciúme possessivo deve ser diferenciado do ciúme que questiona a validade da relação afetuosa diante da violação de um acordo de mutualidade do amor entre duas pessoas, onde uma delas se sente em déficit.
                Nações são governadas com o uso e abuso do Poder a serviço das vaidades pessoais. A ficção na série House of Cards mostra como e os jornais também. O cenário político mundial está impregnado de Jogos de Poder, um verdadeiro cassino cujo saldo final é a miséria em todos os sentidos, sobretudo a miséria de caráter. A forma mais triste de Jogo de Poder chama-se Guerra, com armas ou sem, destruindo vidas, ceifando sonhos, semeando discórdia, incendiando conflitos, favorecendo grupos, corrompendo pessoas e instituições.
Para fazer o contraponto, há um conjunto de Jogos de Poder que são defensivos e levam o jogador a atingir suas metas passivamente. Geralmente acontecem quando a pessoa não quer fazer algo que o outro deseja que ela faça. Para se esquivar (ao invés de dizer que não quer fazer), ela não atende ao telefone, esquece instruções, ignora regras, falta a encontros, enfim, procura frustrar a expectativa do outro de forma dissimulada, ignorando-o.
Quando tomamos consciência dos Jogos de Poder, podemos usar antíteses, interrompê-los através do exercício de respostas cooperativas, pacíficas, que desobedecem às manipulações e abuso de Poder com propostas criativas de negociação. Esta é a forma de usar o outro lado do poder. É a substituição do Controle pela Cooperação.
Logo no início da obra, Steiner descreveu: “Desejo viver confortavelmente com os amigos íntimos que amo e com minha família... Quero ser guiado pela minha consciência em todas as minhas ações. Almejo envelhecer, ficar com a pele áspera e ser respeitado pela minha vida e por meus feitos”. Suas últimas palavras em Ukiah, ao deixar a vida terrena foram: “como sou sortudo”.
Posso dizer que também me considero sortuda por ter conhecido as ideias de Claude Steiner. Quero ser guiada em minha consciência para praticá-las.

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga clínica especialista em Análise Transacional e consultora de empresas.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O COMETA, O ECLIPSE E A ESPONTANEIDADE

 Estava dormindo e talvez sonhando, descansando para mais um dia de estudos e brincadeiras de criança, quando da porta da sala saiu enorme barulho. Batidas vigorosas misturadas com uma voz feminina familiar, insistiram até que alguém foi verificar o que estava acontecendo de anormal naquela hora da madrugada. Meus olhos se abriram e depois se fecharam, recusando entrar em contato com a realidade, seja ela qual fosse. Ouvi vozes dos meus pais misturadas com aquela voz feminina e familiar que se aproximou do meu quarto. Foi então que não pude mais conservar meus olhos fechados: diante da minha cama, estava uma tia querida, em êxtase, aos quase gritos:
- Kátia, venha para a rua ver o cometa!
Minha pouca idade não me permitia ter a noção exata do que estava acontecendo. Cometa? O que é isso? Parecia algo bom, pelo sorriso dela estampado no rosto. Todos saíram para a rua e eu segui o fluxo, ainda sonolenta. Olhavam para o céu e exclamavam: ahhh! Ohhh!
Confesso que fiquei muito mais impressionada com a capacidade da minha amada tia, em reunir a vizinhança na frente da minha casa para ver o cometa, do que com o próprio cometa.
No dia seguinte, no ponto de encontro da feira na vila, o assunto foi ela – minha tia – aquela que acordou um número considerável de vizinhos para ver uma coisa nebulosa no céu chamada cometa.
Assim como minha saudosa tia, existem pessoas que conseguem jorrar espontaneidade por onde passam, fazendo um estilo agregador e catalizador da alegria do grupo para cunhar momentos memoráveis, inesquecíveis.
A imagem que tenho em minha mente do tal cometa, é algo embaçado, uma bola branca e nebulosa no céu (na minha pesquisa tudo indica que foi o cometa Bennett). Com muito custo, consegui ver a “cauda” do cometa, que tanto falavam. No entanto, associei ao fenômeno astrológico à nítida imagem da minha querida tia, olhos brilhantes, sorriso aberto, saltitando pela cozinha enquanto minha mãe passava o café no coador de pano apoiado em um tripé de ferro. Sinto até agora o aroma do pó, misturado com o barulho das vozes com o gosto de alegria, de intimidade, de espontaneidade.
Nos tempos de outrora, a espontaneidade reinava com mais.... Espontaneidade!
Percebo atualmente a dificuldade de expressar espontaneidade nos movimentos da comunicação interpessoal. A intimidade nos relacionamentos está reduzida a uma versão modulada para mais distanciar do que aproximar. Com receio de invadir e de não se sentirem invadidas, as pessoas estão se preservando tanto que a naturalidade das emoções e manifestações de autêntica alegria em estar junto, envolvendo-se diante das coisas simples da vida, está sendo recebida quase como uma inconveniência. Parece que a comunicação se estabeleceu nos grupos sociais com um excesso de zelo pela imagem que vamos ou não vamos passar. Deixamos de nos permitir ser quem somos? Estamos entendendo os benefícios das trocas genuínas e autênticas das nossas emoções isentas de um diálogo interno opositor e crítico?
Outro episódio astrológico interessante e mais recente ocorreu na noite de 27 de setembro de 2015:  um eclipse lunar com condições favoráveis à olho nu, previstas para o Brasil. Aí sim, eu estava muito bem acordada e crescida. Passei o dia me preparando para assistir ao espetáculo. Porém, em determinado momento, o céu se encobriu de nuvens e não consegui ver o eclipse total. Mas tive a sorte de poder acompanhar o fenômeno através de meu filho, que estava em outro país e registrou com fotos, enviando as imagens enquanto as apreciava de lá. Perguntei a ele se a rua estava cheia de pessoas assistindo o eclipse, já que estava tão nítido. Imaginei minha tia nas terras do tio Sam neste momento, batendo nas portas. Mas, para minha perplexidade, meu filho me disse que estava sentado nas escadarias do prédio onde morava e que na rua havia apenas uma jovem falando com um policial, distanciados da singularidade do momento.  Segundo ele, apenas um rapaz saiu de um dos apartamentos, rapidamente fotografou com o celular o eclipse e entrou novamente, sem demonstrar alguma empolgação.
Os eventos astronômicos são belos, fascinantes. Cometas, estrelas, meteoros, eclipses, aurora boreal, chuva de meteoros, conjunção entre planetas e tantos outros, são como nossas fenomenais emoções que ocorrem dentro de cada um de nós e entre nós com intensidade e beleza. Nossa cultura alienante, afasta-nos lentamente da nossa capacidade de senti-las e expressá-las. Perdendo a consciência de quem somos, perdemos a espontaneidade. Sendo estranhos para nós, somos estranhos também entre nós e isso é triste.
Estamos qualificando as emoções presentes nas nossas comunicações e relacionamentos, transformando-as em benefícios para a nossa saúde? Estamos nos empenhando em estreitar os laços com nossos semelhantes, familiares, vizinhos, amigos?
Podemos resgatar nossa espontaneidade com a linguagem do amor, dando-nos atenção ao que fazemos e a quem somos. Desta forma, deixaremos a espontaneidade brotar da mesma base que dá luz à cada átomo no Universo. “Ser espontâneo é nascer a cada momento” – Alberto Caeiro

KÁTIA RICARDI DE ABREU

Psicóloga Clínica e organizacional, especialista em Análise Transacional


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

CONEXÕES NA ERA DA SOLIDÃO




A tarde de sol tímido convidava a um chá acompanhado de cookies com gotas de chocolate e talvez um pedaço generoso de bolo de laranja. Ela passou algumas horas do seu tempo preparando o ambiente. A toalha bordada, os guardanapos com as cores suaves, acompanhando os tons das rosas que enfeitavam o vaso sobre a mesa redonda do jardim. Com seus passos lentos, sentou-se à varanda na confortável cadeira de ratan e olhando para o horizonte, pensou em uma amiga ao seu lado, na outra cadeira, também de ratan, para prosear neste bucólico e acolhedor ambiente. Após várias tentativas, esgotou sua agenda em vão. Não havia companhia para este cenário. Todos estavam ocupados, comprometidos, ou desinteressados. Na companhia dos pardais inquietos, ela sorveu o chá e se serviu de uma fatia do saboroso bolo. Desapontada, não conseguiu impedir que uma lágrima indiscreta rolasse pela face.
 Um grande vazio habita a alma de muitas pessoas nesta sociedade contemporânea. São sete bilhões de seres humanos buscando, cada um a seu modo, esta tal felicidade. A forma egocêntrica de amar coloca o outro à serviço das necessidades. Ao mudar de necessidade, descarta-se o relacionamento com a mesma naturalidade com que é deletado o lixo eletrônico. Nossa sociedade doente revela o embotamento de interesse pelas pessoas não conectadas aos projetos imediatistas, apoiado em uma sensibilidade reprimida, que vai ficando cada vez mais ausente da relação eu-tu.
Na era da solidão, cada um se diverte com seus contatos virtuais, facilmente desligados e controlados à distância. Um clique e pronto! Fui dormir e não precisei nem mesmo me despedir. Outro clique e pronto! Estou de volta. Para uns sim, para outros não, porque posso escolher para quem eu me revelo. Em qual aplicativo posso navegar sem despertar ciúmes das pessoas reais ao meu lado? Em qual ambiente virtual posso preencher meu vazio e fazer conexões que não incomodem a minha consciência e meus valores? Confortável com as escolhas feitas, a vida segue.
A quantidade e a superficialidade dos relacionamentos estão mais disponíveis porque a qualidade e a profundidade deles necessitam tempo de investimento. Lapidação constante. Reparação. Às vezes, perdão.
Há quem não se deixe seduzir pelas relações ilusórias e transitórias, quem busque a essência e a decência de olhares reais, profundos e conectados na alma. Para estes, a vida pode seguir sem eventuais companhias para um chá com bolo de laranja e um papo consistente. Mas não seguirá sem a esperança de ver a outra cadeira de ratan ocupada um dia por alguém que a mereça.

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga
www.katiaricardi.com.br