sexta-feira, 14 de abril de 2017
quarta-feira, 15 de março de 2017
ASSÉDIO MORAL
A Dra. Margarida Barreto, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, defendeu tese de mestrado pesquisando 2.072 trabalhadores das indústrias química, plásticos, farmacêuticos e cosméticos que sofreram assédio moral (42% deles). Segundo ela, o assédio moral está sempre presente em relações hierárquicas de poder em que há o autoritarismo. Normalmente é caracterizado por atos de intimidação e práticas de humilhar, de rebaixar, de intimidar o outro. São práticas que se realizam, se concretizam no local de trabalho. Que individualizam o problema em uma só pessoa, tratam um indivíduo como incapaz, quando na verdade isso é resultante de condições outras de trabalho, envolvendo uma série de outros fatores, principalmente a pressão para: trabalhar, produzir, dar qualidade em pouco tempo.
Hoje, no mundo do trabalho, há menos pessoas trabalhando muito mais. É freqüente Empresas fazerem cortes de funcionários para conter despesas e aumentar suas exigências em termos de produtividade para os que ficam. As metas são estabelecidas pelos chefes, porém, estes não escolhem estratégias para que os trabalhadores atinjam as metas estabelecidas. Muitos acabam adoecendo com as exigências irreais. Alguns chegam a tentar o suicídio. A Dra. Margarida alerta para o aumento do número de casos de assédio moral. Segundo ela, esse aumento tem sido marcante no aparecimento de doenças, de manifestações depressivas, observadas através de sua experiência como clínica médica há trinta anos. Eu concordo com a Dra. Margarida. Nestes vinte anos, o número de queixas que trazem as pessoas para a psicoterapia aumentou consideravelmente em torno das relações desumanas no trabalho, dentre elas, o assédio moral. Mas observo que as pessoas têm uma tendência à auto-culpa, o que é muito comum nesta situação. A Análise Transacional oferece instrumentos eficazes onde as vítimas de assédio moral, aprendem a sair do alvo do agressor. Porém, este agressor elegerá um outro alvo. Somente através de um trabalho com a própria Empresa, mais especificamente com as chefias, é que se pode neutralizar este “vírus”, que se espalha dia a dia pelas organizações, afetando as relações no trabalho e adoecendo pessoas que, muitas vezes, não conseguem discernir que o problema é estrutural e não, individual. Infelizmente, os chefes não conseguem discernir, por sua vez, que estão contribuindo para a queda na produtividade, e para muitos outros danos, inclusive financeiros para esta Empresa.
Observo, na minha prática clínica, que o assédio moral não ocorre apenas de chefe para subordinado. Ocorre também entre subordinados, que querem se destacar perante o chefe, perante os outros ou perante eles mesmos. Por exemplo: o funcionário que tem iniciativa e realiza uma ação, com 99% de acertos, pode ser assediado moralmente por aquele seu companheiro de trabalho, que se aproveita do 1% que ele próprio denomina de “erro”, para massacrar seu colega de trabalho, como se ele não tivesse feito nada de bom. Esse massacre é sutil, é no pé do ouvido, dia após dia, com o chefe ou com os companheiros. Aos poucos, aquele indivíduo que fez algo que merece reconhecimento acaba se tornando o “bode expiatório”. Principalmente, quando a competência dele incomoda. É um conjunto de jogos de poder. Quando o assédio moral não atinge o assediado profissionalmente, a tendência é partir para o ataque na vida pessoal. Surgem “fofocas” sobre o comportamento do indivíduo de tal forma que nada se prova, mas o estigma se instala e só o tempo poderá apagar ou não os comentários feitos não se sabe por quem. O que o assediado pode fazer? Existem três alternativas:
Resistir. Buscar solidariedade do grupo. Esta é a alternativa mais saudável.
Demitir-se, procurar outro emprego, por não encontrar apoio dentro do grupo, dentro da Empresa. Considero esta alternativa saudável também. A Dra. Margarida recomenda que o funcionário vá ao sindicato da categoria, Centro de Referência do Trabalhador, que são ligados às Secretarias de Saúde do Estado ou do Município, Ministério Público ou mesmo o Conselho Regional de Medicina, dependendo da esfera do assédio moral.
Continuar trabalhando por medo de não encontrar outro emprego e ao mesmo tempo, com medo de perder este emprego e nesta posição, acaba adoecendo.
A Dra. Margarida relaciona as principais doenças causadas pelo assédio moral pesquisadas por ela: mais de 50% dos casos são manifestações depressivas, hipertensão, dores generalizadas pelo corpo, tensão no pescoço, gastrite – distúrbios digestivos – e distúrbios do sono. As pessoas pesquisadas mostram o resultado desse adoecer com exames clínicos. Tudo em conseqüência do trabalho.
Como fazer a prevenção do assédio:
Segundo a Dra. Lys Esther Rocha, que é do Departamento de Medicina do Trabalho da Faculdade de Medicina da USP e defendeu tese de doutorado sobre o stress no trabalho, há instrumentos dentro das Empresas que poderiam ajudar de alguma forma, no sentido de estar discutindo as condições no trabalho; até que ponto elas são viáveis e quais as conseqüências disso: são as Comissões de prevenções de acidentes e as comissões de qualidade de vida no trabalho.O importante é entender que o problema não é do indivíduo, mas das condições de trabalho que permitem que chefes e/ou outras pessoas que realizam o assédio moral, tenham espaço para isso. Ela exemplifica: “nas Empresas onde a qualidade do trabalho é muito importante, tipo indústria química, nuclear, aviação, onde o stress determina um risco grave em termos de responsabilidade, estes problemas têm sido rapidamente resolvidos”.Então, por que não resolver em todas as outras Empresas? Afinal, o mundo corporativo não está em busca de qualidade? Não está querendo lucros? Os programas de qualidade total consideram todas as funções importantes e de responsabilidade dentro do processo. Penso que a saúde e a qualidade de vida do cliente interno (funcionários) deveria ser levada mais a sério, pelos dirigentes das Empresas, até mesmo, para que eles possam obter os resultados financeiros desejados.
O mais interessante, é que muitas Empresas não conseguem enxergar quanto perdem com isso. A diretoria pensa em produção, em metas, mas não tem visão sobre o quanto as relações no trabalho interferem no processo. Os profissionais da área da saúde estão recebendo milhares de pessoas estressadas, que começam a apresentar queda na produtividade, depressão e até enfarto. Segundo a Dra. Lys, a saída para não responder às agressões e humilhações tem sido: academias de ginástica,dança, etc. Penso que pode ser como uma estratégia para canalizar as emoções.
Vamos torcer para que as Empresas possam um dia compreender que a produtividade está diretamente ligada a um ambiente de trabalho sadio, e assim, dar a devida importância para as relações humanas entre os seus funcionários. Com certeza, os lucros serão maiores em todos os sentidos, para todas as partes.
Quem pratica assédio moral, no meu entendimento, está trabalhando contra a própria Empresa, muitas vezes com a conivência das pessoas que estão na cúpula dela. Isso seria burrice? Prefiro acreditar que é apenas falta de informação.
Kátia Ricardi de Abreu é Psicóloga especialista em Análise Transacional, Membro Certificado Clínico pela ALAT e pela UNAT-BRASIL, atua na área clínica, é consultora de empresas e escritora
Este artigo está publicado em www.katiaricardi.com.br e vários sites autorizados pela autora
quarta-feira, 8 de março de 2017
A AMÉLIA DE HOJE
“Que, finalmente, o outro entenda que embora às vezes me esforce, não
sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa vulnerável e forte,
incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa ... Uma Mulher!” Lya Luft
Ter
sucesso profissional sem deixar de ser excelente dona-de-casa, mãe exemplar com
filhos exemplares, amante fogosa com um corpo impecável, rosto sem rugas e
belas pernas. É a armadilha perfeita. A mulher que busca atingir todos estes
quesitos vai encontrar muita frustração e conviver com muita culpa.
Liberdade
já não é mais problema externamente. A mulher pode fazer tudo o que um homem
faz. A briga agora, é outra: a conquista da liberdade interna, que só pode ser
concedida pelo superego.
A
Amélia de hoje não é perfeita, não dá conta de tudo e muitas vezes se perde e
se confunde com estes andróides padrões de beleza que muitas vezes, levam ao
exagero; desajeitada numa imagem corporal idealizada (por quem?), corre o risco
de se desconectar de sua essência, privando-se daquela que realmente é. Estressada,
agoniada, deprimida quando não respeita seus limites e fraquezas, ela busca uma
carreira meteórica em detrimento da qualidade de vida. Não satisfeita em dar o
melhor de si, embarca em cobranças irrealistas e estabelece competições
absurdas, querendo quebrar o próprio recorde da polivalência perfeita.
A
escritora e psicoterapeuta Lídia Aratangy propõe um estilo de vida realista
onde a mulher é dona de si, dona de sua história e sabe se ouvir para traçar o
seu destino, de tal forma que não se submete a uma vida olímpica e perfeita. Dá
o melhor de si para que o mundo seja melhor, sem se esquecer que é uma simples
mortal, dotada de fraquezas e limitações.
A
escritora nos lembra que muitas bandeiras já foram erguidas pela mulher através
dos tempos para romper barreiras e conquistar espaços no mundo e convida as
mulheres a hastear agora, a bandeira da trégua e do descanso, para olhar para a
vida com orgulho do que está conseguindo fazer, reconhecer o que já conquistou
e caminhar em frente respeitando seu ritmo, que não é lento; é simplesmente
humano. A Amélia de hoje pode conquistar a sua própria tolerância e assim, ser
respeitada pelo outro, lembrando-o de que chegou a sua vez do quebra-encanto. A
mulher já compreendeu, há muito, que não existem príncipes encantados (ou ainda
há quem acredita nisso?) Agora, é a vez dos homens compreenderem que não existe
a mulher maravilha.
Oxalá
destituídas de onipotência possamos agendar compromissos do tamanho de nossas
pernas, considerando o dia com 24 horas ao invés de cobrarmos as pendências
resultantes de uma voracidade em produzir muito mais do que nossa capacidade
humana nos permite. Definitivamente, não está mais na moda ser workaholic (e
olha que eu já fui - mas consegui me curar!). Ser competente também é
conquistar o caminho do equilíbrio, de tal forma que a vida se torna pacífica,
apesar de todos os surpreendentes desencontros e variáveis desagradáveis que até
mesmo a natureza está nos proporcionando.
Na
bolsa da mulher, indispensável ainda é o batom que tem que dar espaço agora
também para o filtro solar. No coração, indispensável é a ternura e a
sensibilidade para perceber desejos e necessidades, acompanhados de sua
impotência para atender a todos eles.
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga Clínica especialista em
Análise Transacional, Consultora de empresas e escritora.
terça-feira, 7 de março de 2017
MUITO ALÉM DAS FLORES...
Embora todo o
arsenal de informação globalizada e tecnologicamente acessível em nossos tempos,
há quem pense que o Dia Internacional da Mulher é um dia comercial, como o dia
das mães, dos pais, dos namorados...
O dia 08 de
março vai muito além das flores ou bombons. Trata-se de uma data histórica,
onde 129 operárias perderam a vida num conflito com forças policiais nos
Estados Unidos, em 1857 porque fizeram uma manifestação grevista em prol da redução
da jornada de trabalho e do direito à licença-maternidade. O fato inspirou o filme
hollywoodiano, cuja protagonista foi vencedora do Oscar por interpretar a
operária Norma Ray.
Longe de
querer ser feminista, ressaltar as conquistas da mulher através dos tempos
tornou-se motivo de orgulho, principalmente quando sentimos na pele, em pleno século
XXI, as manifestações veladas da discriminação (ainda!). A sutileza é grande,
porém, não escapa à percepção feminina.
As
características psicológicas e emocionais típicas do sexo feminino equalizam um
estilo produtivo que deixa um resultado visivelmente positivo no cenário
mundial:
A indiana
Indira Gandhi, assassinada em 1984, foi presidente do Congresso indiano, primeira-ministra
da Índia, sendo a primeira mulher a ocupar um cargo de chefe de governo numa
sociedade de base patriarcal. Margaret Hilda Roberts Thatcher tornou-se a
primeira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha e a
primeira a liderar uma nação no Ocidente. A médica pediatra Verônica Michelle
Bachelet foi eleita presidente do Chile e a física Ângela Merkel, desde 2005 é
a primeira mulher a ocupar o cargo de chanceler da Alemanha. Temos também a
presidente liberiana, Ellen Johnson-Sirleaf, primeira chefe de estado de um
país africano. Nancy Pelosi é a segunda pessoa na linha sucessória presidencial
dos Estados Unidos e entrou para a história americana em janeiro de 2007 ao se
tornar a primeira mulher a presidir a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.
Braço direito do Presidente Bush, a secretária de Estado Condolezza Rice é quem
lida com a parte internacional do governo norte-americano. Sem contar Hillary
Diane Rodham Clinton, primeira mulher a tomar posse como senadora pelo estado
de Nova York; mesmo depois de todos os problemas conjugais expostos ao mundo, preferiu
não entrar no papel de vítima e ficar para a história como coitadinha. Ela
buscou recursos para a pesquisa do câncer de mama e vacinas infantis e recebeu
prêmios Fundação Humanitária Elie Wiesel e o Prêmio Martin Luther King em
função do trabalho social desenvolvido.
Em terras
tupiniquins, a mulher ocupa 13% dos cargos de direção, 41% da População
Economicamente Ativa, 40% do mercado de trabalho, sendo que mais de 25% das
famílias brasileiras são sustentadas por mulheres. Ainda, temos aquelas que dão
reforço ao orçamento com trabalhos informais e aquelas que renunciaram a uma
carreira profissional para serem o suporte para os homens irem à luta.
Este é o
frágil sexo forte, que “todo mês sangra”!
(Rita Lee teve sua música censurada durante muitos anos por causa destas três
palavras inseridas na letra da música “Cor de Rosa Choque”).
É expressiva a
contribuição da mulher na família e no trabalho, com seu perfil conciliatório.
“...Por isso, não provoque a cor de rosa
choque.
Não, não, não provoque”... (Rita Lee)
Kátia Ricardi de Abreu, Psicóloga Clínica Analista Transacional, Consultora de Empresas e escritora.
sábado, 4 de março de 2017
EX
Ex-namorado,
ex-marido, ex-esposa, ex-presidente, ex-funcionário, ex-ficante, ex-sogra,
ex-isso, ex-aquilo. Uma das coisas mais difíceis é ser ex. Saber sair de cena
com dignidade, equilíbrio e categoria.
Nas relações
amorosas, ser ex é um verdadeiro teste de diplomacia. Já vi gente criar perfil
fake para seguir o ex. O outro extremo também acontece: ignorar o ex, fingir
que não o conhece. Não dá para se comportar como se a pessoa nunca tivesse
feito parte da vida. Por mais traumático que tenha sido o relacionamento ou o
rompimento, um dia a coisa foi boa, senão não teriam ficado juntos por algum
tempo. O amor acabou (mesmo?), mas o respeito, a consideração, pode continuar e
esta é a arte de ser ex.
Que coisa feia
quando a pessoa sai falando para quem quiser ouvir, sobre aspectos da
intimidade do ex. Conta seus defeitos, expõe seus pontos fracos mais
constrangedores, diz que ele tem chulé, mau hálito e disfunção erétil. Que ela
tem cabelo postiço, cheiro de bacalhau e ronca à noite. Barbaridade!
Os segredos do
casal devem permanecer entre o casal mesmo que o relacionamento acabe. Abra o
dicionário e procure pelo verbo “acabar”. Lembre-se de que o que acabou foi
apenas esse relacionamento. Outros virão. E o principal: a vida não acabou. Poderá
ficar melhor ainda com as lições sobre o que não fazer e o que fazer para ter
uma relação amorosa duradoura.
Ciúme de ex é
bizarro. A mulher não pode cumprimentar o ex, porque o namorado atual briga com
ela, no estilo “teu passado te condena”. O homem tem que jogar fora o rolex e a caneta Montblanc presenteados pela ex porque a namorada atual é só
chilique quando vê esses objetos. Ora, se ocorrem problemas com o ex, é porque
ele ainda é! A separação física pode ter ocorrido, mas a psicológica, ainda não.
Ex-funcionário
também pode dar “bafão”, sair falando mal da empresa e das pessoas com quem
trabalhou. Jogar sinuca no boteco contando as intimidades corporativas e
passando informações gratuitas, tomar cerveja com os ex-colegas de trabalho
para atualizar as fofocas. Nada mais antiético!
A mídia revela
diariamente o quanto é difícil ser ex. Prestem atenção nas declarações de ex-presidentes,
ex-alguma-coisa na área política. É difícil voltar a ser um simples mortal
depois de tantos holofotes, tapetes vermelhos, festas com mesas cativas, destaques
em revistas e jornais e todos os aparatos do poder.
Ex-amigo é uma
tristeza. Penso que amigos nunca deixam de ser amigos. Podem se afastar, se
separar, se distanciar, se estranhar. Rompimento definitivo na amizade é sinal
de decepção das grandes, quando se descobre que aquela criatura parecia ser uma
coisa e era outra. O ex-amigo costuma deixar profundas cicatrizes na alma.
Passageiros
chegam, passageiros partem na estação da vida. Assim também é no coração de
cada um de nós. Reavaliamos e reformulamos constantemente nossos vínculos.
Abrimos e fechamos ciclos de convivência. Como fazer isso de forma madura e
saudável? Acenar sorrindo, despedir-se mansamente, sem amarguras faz parte da
arte de ser ex.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
O LADO B DO PODER
Em uma
manhã encalorada deste verão, pensei em Claude Steiner ao esbarrar meus olhos
em uma de suas obras repousando na minha estante. Algumas horas depois, constatei
que estávamos exatamente no dia do nascimento deste mestre querido. Enviei uma
tímida mensagem, cumprimentando-o, encorajada pelas respostas sempre gentis que
ele me dirigiu em outras ocasiões. Mas esta mensagem ele não pôde responder. Naquele
dia, Steiner estava às margens do lago em seu rancho em Ukiah, Califórnia,
rodeado pela família, despedindo-se da sua passagem pela Terra. Segundo sua
filha Mimi, ele se foi “olhando para a água, ouvindo música, chorando e rindo a
beleza da vida”.
Voltei até
a estante e peguei aquele livro. Com as folhas amareladas e com o texto grifado
até não poder mais, a primeira página tinha minha letra reproduzida pela
esferográfica registrando que eu o havia adquirido em 1988 em um dos Congressos
de que participei. Dentro do livro, encontrei um registro mais precioso: minha
foto com Steiner, em encontro que tivemos em 1992. Folheando e lendo alguns
parágrafos grifados, observei o quanto este mestre querido esteve muito além do
seu tempo. Como são atuais suas ideias publicadas na década de 80, sobre o uso
do poder para mudar padrões de relacionamento interpessoal, grupal e social de
forma cooperativa, pacífica e construtiva: o outro lado do poder.
Jogos de
poder são transações tóxicas, desonestas, manipuladoras, para fazer com que as
pessoas façam o que o jogador quer que elas façam e ainda (pasmem!), tendo a
sensação de gostar de fazê-lo.
Steiner
ensinou a identificar e compreender os Jogos de Poder. Mais que compreender,
ele ensinou a responder aos Jogos e manipulações desbancando o abuso do Poder
nas relações sociais, políticas, familiares, conjugais.
O uso e o abuso do Poder acontecem de forma
sutil, suave, elegante. Fingir não ter poder algum é uma forma requintada de
usar o Poder. O abuso requintado do Poder
é a capacidade de persuadir o outro a desejar o que você deseja.
Há uma
crença na qual, Poder e Sucesso andam juntos. Neste cenário, acrescenta-se a
Competição: para se sentir poderosa, a pessoa precisa minar o poder do outro.
Este mundo tendencioso é lamentavelmente bidimensional – só existem duas
alternativas: tudo ou nada, branco ou preto, isto ou aquilo, ganhar ou perder, você
é meu amigo ou é meu inimigo, está no meu time ou contra mim, faz tudo que eu
quero ou não me ama. Através da intimidação apoiada no medo das pessoas e na
exploração da culpa, das ameaças sutis e veladas às agressões e torturas, o
jogador também pode fazer uso das mentiras descaradas ou segredos e
meias-verdades, mexericos e boatos.
Sentimentos
de amor e desejos de dominar os movimentos do outro (controle) são confundidos
nos relacionamentos conjugais gerando ciúme e posse. O uso e abuso de poder nas relações conjugais
ocorrem sutilmente, protegidos pela fachada de “casal 20”, beijocas, elogios
mútuos e tudo o mais. Agressões passivas, controle exacerbado, cobranças. Ciúme
possessivo deve ser diferenciado do ciúme que questiona a validade da relação
afetuosa diante da violação de um acordo de mutualidade do amor entre duas
pessoas, onde uma delas se sente em déficit.
Nações são governadas com o uso e abuso do Poder a
serviço das vaidades pessoais. A ficção na série House of Cards mostra como e os jornais também. O cenário político
mundial está impregnado de Jogos de Poder, um verdadeiro cassino cujo saldo
final é a miséria em todos os sentidos, sobretudo a miséria de caráter. A forma
mais triste de Jogo de Poder chama-se Guerra, com armas ou sem, destruindo
vidas, ceifando sonhos, semeando discórdia, incendiando conflitos, favorecendo
grupos, corrompendo pessoas e instituições.
Para fazer
o contraponto, há um conjunto de Jogos de Poder que são defensivos e levam o
jogador a atingir suas metas passivamente. Geralmente acontecem quando a pessoa
não quer fazer algo que o outro deseja que ela faça. Para se esquivar (ao invés
de dizer que não quer fazer), ela não atende ao telefone, esquece instruções, ignora
regras, falta a encontros, enfim, procura frustrar a expectativa do outro de forma
dissimulada, ignorando-o.
Quando
tomamos consciência dos Jogos de Poder, podemos usar antíteses, interrompê-los
através do exercício de respostas cooperativas, pacíficas, que desobedecem às
manipulações e abuso de Poder com propostas criativas de negociação. Esta é a
forma de usar o outro lado do poder. É a substituição do Controle pela Cooperação.
Logo no
início da obra, Steiner descreveu: “Desejo viver confortavelmente com os amigos
íntimos que amo e com minha família... Quero ser guiado pela minha consciência
em todas as minhas ações. Almejo envelhecer, ficar com a pele áspera e ser respeitado
pela minha vida e por meus feitos”. Suas últimas palavras em Ukiah, ao deixar a
vida terrena foram: “como sou sortudo”.
Posso dizer
que também me considero sortuda por ter conhecido as ideias de Claude Steiner.
Quero ser guiada em minha consciência para praticá-las.
Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga clínica especialista em Análise
Transacional e consultora de empresas.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
O COMETA, O ECLIPSE E A ESPONTANEIDADE
Estava
dormindo e talvez sonhando, descansando para mais um dia de estudos e
brincadeiras de criança, quando da porta da sala saiu enorme barulho. Batidas
vigorosas misturadas com uma voz feminina familiar, insistiram até que alguém
foi verificar o que estava acontecendo de anormal naquela hora da madrugada.
Meus olhos se abriram e depois se fecharam, recusando entrar em contato com a
realidade, seja ela qual fosse. Ouvi vozes dos meus pais misturadas com aquela
voz feminina e familiar que se aproximou do meu quarto. Foi então que não pude
mais conservar meus olhos fechados: diante da minha cama, estava uma tia
querida, em êxtase, aos quase gritos:
- Kátia,
venha para a rua ver o cometa!
Minha pouca
idade não me permitia ter a noção exata do que estava acontecendo. Cometa? O
que é isso? Parecia algo bom, pelo sorriso dela estampado no rosto. Todos
saíram para a rua e eu segui o fluxo, ainda sonolenta. Olhavam para o céu e
exclamavam: ahhh! Ohhh!
Confesso
que fiquei muito mais impressionada com a capacidade da minha amada tia, em reunir
a vizinhança na frente da minha casa para ver o cometa, do que com o próprio
cometa.
No dia seguinte,
no ponto de encontro da feira na vila, o assunto foi ela – minha tia – aquela
que acordou um número considerável de vizinhos para ver uma coisa nebulosa no
céu chamada cometa.
Assim como
minha saudosa tia, existem pessoas que conseguem jorrar espontaneidade por onde
passam, fazendo um estilo agregador e catalizador da alegria do grupo para
cunhar momentos memoráveis, inesquecíveis.
A imagem
que tenho em minha mente do tal cometa, é algo embaçado, uma bola branca e
nebulosa no céu (na minha pesquisa tudo indica que foi o cometa Bennett). Com
muito custo, consegui ver a “cauda” do cometa, que tanto falavam. No entanto,
associei ao fenômeno astrológico à nítida imagem da minha querida tia, olhos
brilhantes, sorriso aberto, saltitando pela cozinha enquanto minha mãe passava
o café no coador de pano apoiado em um tripé de ferro. Sinto até agora o aroma
do pó, misturado com o barulho das vozes com o gosto de alegria, de intimidade,
de espontaneidade.
Nos tempos
de outrora, a espontaneidade reinava com mais.... Espontaneidade!
Percebo
atualmente a dificuldade de expressar espontaneidade nos movimentos da
comunicação interpessoal. A intimidade nos relacionamentos está reduzida a uma
versão modulada para mais distanciar do que aproximar. Com receio de invadir e
de não se sentirem invadidas, as pessoas estão se preservando tanto que a
naturalidade das emoções e manifestações de autêntica alegria em estar junto,
envolvendo-se diante das coisas simples da vida, está sendo recebida quase como
uma inconveniência. Parece que a comunicação se estabeleceu nos grupos sociais
com um excesso de zelo pela imagem que vamos ou não vamos passar. Deixamos de
nos permitir ser quem somos? Estamos entendendo os benefícios das trocas
genuínas e autênticas das nossas emoções isentas de um diálogo interno opositor
e crítico?
Outro
episódio astrológico interessante e mais recente ocorreu na noite de 27 de
setembro de 2015: um eclipse lunar com
condições favoráveis à olho nu, previstas para o Brasil. Aí sim, eu estava
muito bem acordada e crescida. Passei o dia me preparando para assistir ao
espetáculo. Porém, em determinado momento, o céu se encobriu de nuvens e não
consegui ver o eclipse total. Mas tive a sorte de poder acompanhar o fenômeno
através de meu filho, que estava em outro país e registrou com fotos, enviando
as imagens enquanto as apreciava de lá. Perguntei a ele se a rua estava cheia
de pessoas assistindo o eclipse, já que estava tão nítido. Imaginei minha tia
nas terras do tio Sam neste momento, batendo nas portas. Mas, para minha
perplexidade, meu filho me disse que estava sentado nas escadarias do prédio
onde morava e que na rua havia apenas uma jovem falando com um policial,
distanciados da singularidade do momento.
Segundo ele, apenas um rapaz saiu de um dos apartamentos, rapidamente
fotografou com o celular o eclipse e entrou novamente, sem demonstrar alguma
empolgação.
Os eventos
astronômicos são belos, fascinantes. Cometas, estrelas, meteoros, eclipses,
aurora boreal, chuva de meteoros, conjunção entre planetas e tantos outros, são
como nossas fenomenais emoções que ocorrem dentro de cada um de nós e entre nós
com intensidade e beleza. Nossa cultura alienante, afasta-nos lentamente da
nossa capacidade de senti-las e expressá-las. Perdendo a consciência de quem
somos, perdemos a espontaneidade. Sendo estranhos para nós, somos estranhos
também entre nós e isso é triste.
Estamos qualificando
as emoções presentes nas nossas comunicações e relacionamentos,
transformando-as em benefícios para a nossa saúde? Estamos nos empenhando em
estreitar os laços com nossos semelhantes, familiares, vizinhos, amigos?
Podemos
resgatar nossa espontaneidade com a linguagem do amor, dando-nos atenção ao que
fazemos e a quem somos. Desta forma, deixaremos a espontaneidade brotar da
mesma base que dá luz à cada átomo no Universo. “Ser espontâneo é nascer a cada
momento” – Alberto Caeiro
KÁTIA RICARDI DE ABREU
Psicóloga Clínica e organizacional,
especialista em Análise Transacional
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