domingo, 18 de agosto de 2013

ALÉM DAS FLORES



publicado em 18 de agosto de 2013 na Revista Bem-Estar, Diário da Região




Ela me disse entusiasmada: estou fazendo arranjos, buquês, vasos decorativos, olha só esta foto (e num piscar de olhos a foto apareceu na tela – que beleza!). E ela continuou teclando absurdamente rápido, compartilhando comigo todos os detalhes da sua mais recente conquista: transformar sonho em realidade.
A professora doutora que está virando florista planejou deixar de dar aulas, saturada e desgastada com a profissão, para se dedicar a uma atividade que parece fazê-la sentir-se leve e feliz.
Virar a mesa, mudar o rumo da vida envolve motivação, coragem, planejamento. Eric Berne afirmava que podemos fazer nosso plano de vida consciente e livre de destino. O mundo está repleto de histórias assim: sonhei, fui lá e fiz! Geraldo Vandré cantou: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. É a revolução da alma, da carreira, do que quisermos!
Vamos então falar das flores. Aquelas que você colhe porque plantou. Aquelas que você cultiva dia após dia torcendo para que todas as variáveis contribuam para o seu esplendor: água, sol, sombra, terra, adubos, o que mais vier!
Não vamos falar das lamentações enfadonhas que chegam às raias da irritação após o período de tentativas compreensíveis sobre a construção da infelicidade. Sim, porque existem pessoas altamente capacitadas e preparadas, diplomadas e sacramentadas neste assunto: o que fazer para as coisas não darem certo. Quais coisas? Tudo. O casamento, a carreira, os relacionamentos, a vida navega sempre na contramão da felicidade para elas.
Vamos falar só das flores.  Aquelas cuja semente germina no âmago de cada um quando não poupa credibilidade em si para se adentrar em projetos calculadamente estudados. Aquelas flores que nos fazem lembrar à generosidade do Universo, que por meio de tantas espécies, encantam os olhos de quem as vê, na sua singular existência em cada estação do tempo. Somos criaturas nascidas para cultivar nossos dons em benefício da humanidade. É o que fazemos quando colocamos no trabalho o prazer de trabalhar.
Não vamos falar das lutas e labutas para ganhar dinheiro a qualquer preço, sem respeitar a ética das relações com os nossos semelhantes e com a natureza, fazendo da profissão, seja ela qual for, o caminho mais fácil para a amargura de uma consciência pesada e endividada. Com a conta bancária em crédito, mas com a conta moral em débito é possível ser feliz?
Vamos continuar a falar delas, das flores! Da parte boa de cada um que floresce quando encontra sua vocação para a vida, quando descobre a paixão de acordar a cada manhã para fazer o que gosta e voltar para casa trazendo cansaço e realização em todos os sentidos, inclusive financeiro, que neste caso se torna mera consequência.
E assim, tricotei longamente sobre os planos da mais jovem empresária no ramo das flores, a professora doutora que se cansou de alunos que não querem aprender, de provas que não quer mais aplicar nem corrigir.
 No final da nossa conversa virtual, pedi permissão para ela: “posso escrever algo sobre sua história? Posso falar das flores e da sua coragem de mudar o rumo da sua carreira profissional?” Ela sorriu largamente e disse: “sobre as flores? Claro... mas então aproveite e escreva  que eu estou solteira e que quero mudar também sobre isso, quem sabe alguém se interessa por este detalhe”. Foi então a minha vez de abrir um largo sorriso. A mudança estava acontecendo muito além das flores. E você leitor? Também abriu um sorriso neste momento?

Kátia Ricardi de Abreu
Psicóloga CRP 06/15951-5 especialista em análise transacional