sexta-feira, 13 de novembro de 2015

FAÇA SILÊNCIO

Foi entre os arbustos e flores cultivadas pelo "Seu Candinho" no Colégio Santo André, que certa vez me foi revelado a importância do silêncio. Adolescentes inquietas que éramos, não bastava olhar para o cenho franzido da Madre Marta que em pé, com o sino embaixo da axila esquerda, aguardava as andrelinas enfileiradas, fecharem a boca. Cutucões para lá e para cá, após alguns segundos, nem os pássaros ousavam interromper o profundo silêncio que se fazia valer no páteo externo gramado, rigorosamente verde. Ela subia alguns degraus da escada que dava acesso ao bosque, para que todas as alunas pudessem vê-la e iniciava a reunião, apelidada por nós de "sermão da montanha". Habilidade ímpar tinha esta mulher em conseguir ser ouvida e entendida sem microfone, naquele cenário mágico e inesquecível. Aprendi a disciplinar minha escuta.

Mas não ficou só nisso.

Um jovem padre, descontraído e brincalhão,carregando nos braços um violão, ensinou-nos uma canção feita por ele. Aos primeiros acordes, as vozes femininas, misturadas com aquela única voz masculina, entoava: "Faça silêncio em seu coração, porque o Senhor lhe quer falar".
Irala, padre Irala. Foi ele quem ensinou-me a desenvolver a sensibilidade para ouvir meu coração através do silêncio. Canção suave, dizia que o Senhor nos fala na escuridão, nos fala quando amanhece o dia, nos fala através da natureza, nos fala... mas, precisamos aprender a fazer silêncio para ouvir.

Assim me habituei a fazer do silêncio meu aliado. E mais tarde na vida, desenvolvendo habilidades como psicoterapeuta, aprendi mais sobre o silêncio e sua importância para o nosso equilíbrio. Como é saudável aquietar-se para decifrar nossos sentimentos, para encontrarmos nossas verdades, para decidirmos nossos rumos.

As lições de disciplina da Madre Marta e as canções do padre Irala são preciosidades que elevaram minha existência e proporcionaram conforto para a minha alma.

Hoje, meu coração é cheio de nostalgia deste tempo glamouroso e feliz. Feliz porque íamos do silêncio ao barulho sem descartar a profundidade de ambos. Batendo palmas, cantávamos com padre Irala a música que ele fez para nós:

"Mensagem de amor e fé,
Menina de Santo André,
A vida vai viver cantando
E a paz levando para quem quiser...

 Ele nos levava ao êxtase no final, onde as palmas se misturavam com risos e quiçá, com lágrimas:

Nos braços trago um violão,
No peito vibra uma canção,
E São José do Rio Preto bagunçou o coreto do meu coração,
Cidade que é simpatia
E é a moradia da minha canção....

Laiá-laiá-laiá-laiá, .......

Bons tempos!