terça-feira, 5 de março de 2013

DA LAVANDERIA PARA O MUNDO



DA LAVANDERIA PARA O MUNDO

publicado no livro "Presença da Mulher", TSH Editora



Manhãzinha calma e tranqüila dentro de mim. Abro meus e-mails ao mesmo tempo em que entro na página do facebook para saber como estão meus amigos virtuais, quando Lelé Arantes me chama no bate-papo e diz: “Kátia, você pode escrever algo sobre a mulher?”
Impossível dizer “não” para este tema tão fascinante. É como entrar no túnel do tempo e rever os flashes da História, misturada nela que estou, pela minha simples condição de mulher. É juntar o antigo com o moderno na arquitetura comportamental desta intrigante e inquieta alma de mulher.  Então, cá estou eu, nesta tarde de domingo ensolarado, com o notebook na lavanderia da minha casa, tentando escrever ao mesmo tempo em que aguardo a máquina de lavar roupas terminar a centrifugação para poder estendê-las no varal.

UM TEMPO DE DÚVIDAS E ANGÚSTIAS:

Faço uma retrospectiva de tudo o que já escrevi sobre a mulher nas últimas décadas e encontro um dos primeiros textos, quando estava descobrindo que é possível trabalhar, ser mãe e dona de casa ao mesmo tempo. Naquela época, muitas mulheres saíam para trabalhar com culpa por deixarem seus filhos em casa, com babás, creches ou avós. Chegavam a abandonar temporária ou definitivamente a carreira profissional para cuidar dos filhos.
Anterior aos filhos, muitas mulheres tinham que optar entre carreira e casamento. “Por que você deixou o seu último emprego?” – era uma das perguntas que eu fazia na entrevista para recolocação profissional na Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo. A resposta mais freqüente era: “parei para casar”.
O trabalho foi, durante muito tempo, uma forma de sobrevivência para a mulher, sem a menor chance de somar a isso, algo próximo à realização. A partir do momento em que ela encontrava um provedor, ajustava-se à expectativa da sociedade machista e abandonava o trabalho. A própria estrutura social induzia a isso, tendo em vista a escassez e despreparo das creches e escolinhas particulares. A mulher não conseguia conciliar a vida profissional com o casamento e o cuidado aos filhos, por falta de estrutura emocional e social.
“Nosso lugar é no mundo e não apenas na cozinha” – foi o que escrevi no artigo “Guerreiras”, publicado cerca de 25 anos. Viva!  Hoje, estou eu aqui na lavanderia neste domingo ensolarado, com este notebook conectado ao mundo. Nosso lugar não é apenas na cozinha, nem apenas na lavanderia.


EVOLUÇÃO E CONQUISTAS:

Devemos agradecer a muitas mulheres como Alzira Soriano, Ana Pimentel, Maria Quitéria, Maria Bonita, Leila Diniz, Escrava Bernarda, Maria Lenk, Fernanda Montenegro, Chiquinha Gonzaga, Luz Del Fuego, Marquesa de Santos, Princesa Isabel, Chica da Silva, Condessa de Barral, que abriram caminhos para que estivéssemos na posição atual.
O frágil sexo forte mereceu conquistas como a pílula anticoncepcional, nos anos 60, o divórcio em 1977, a invenção das fraldas descartáveis em 1951, e do sutiã que livrou a mulher de apertados espartilhos, em 1914; o absorvente descartável em 1930, o “ohne binden”, que significa “sem absorvente”, mais conhecido como O.B., em 1974 no Brasil, o aspirador de pós em 1901 e a máquina de lavar roupas em 1915 (olha ela aqui, graças a qual escrevo estas páginas!).
Tudo isso e muito mais contribuiu para que a mulher se tornasse mais livre e versátil, para poder se manifestar no mundo do trabalho pelo prazer da realização e não apenas, para sobreviver enquanto aguarda o casamento.
Em poucas décadas, a evolução da mulher no mundo ocidental tornou-se cada vez mais acentuada no que diz respeito a seus direitos. Ficou mais acessível a entrada no mercado de trabalho, no meio universitário e soma-se a isso, a descoberta de novas formas de se conduzir no amor. A saída do universo doméstico e do exclusivo cuidado com os filhos conduziu-a para um espaço público antes reservado apenas aos homens.


UM POUCO DE ESTATÍSTICA:


Segundo o IBGE, existem 3.941.819 milhões de mulheres a mais que homens no Brasil. A taxa de participação das mulheres na População Economicamente Ativa (PEA) é consideravelmente superior à média latino-americana (55% contra 45%), mas é inferior à média dos países desenvolvidos, de acordo com o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apresentado em 2003.
 As mulheres inseridas no mercado de trabalho dedicam 22,1 horas por semana às tarefas da casa, enquanto os homens gastam apenas 9,9 horas com essas atividades. Apesar de apoiar a ida da mulher para o mercado de trabalho, apenas 6,1% dos homens dividem as tarefas domésticas com elas. A dupla jornada ainda é a realidade da mulher brasileira.
Durante a semana, a jornada diária da mulher é de 502 minutos, 5% maior que a do homem (480 minutos). No fim de semana, a jornada diária da mulher é de 326 minutos, 62% maior que a carga masculina (201 minutos), segundo dados da pesquisa da socióloga Neuma Horizonte, em 2002.
Os filhos e o emprego vêm em primeiro lugar para 52% das mulheres brasileiras.
No Brasil, 50% da mão de obra economicamente ativa estão representadas pelas mulheres. Na política, as mulheres ocupam menos de 10% dos cargos existentes, embora a liderança maior do país atualmente esteja representada por uma mulher.

Cerca de 40% do mercado de trabalho é composto por mulheres nos mais diversos cargos e funções. Das 100 melhores empresas para se trabalhar, no Brasil, só 7,7% têm diretoras e a questão que está por trás disso é o preconceito. Uma bobagem! O universo do trabalho lucrou com o ingresso das mulheres e a dinâmica familiar obteve benefícios da contribuição masculina, de tal forma que as diferenças se completam na formação de uma sociedade onde poderá não existir privilégio de um gênero sobre o outro.
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OS EXTREMOS DA VIOLÊNCIA:

No mundo, a cada cinco dias de falta da mulher no trabalho, um é decorrente de violência sofrida no lar. Segundo a ONU, o Brasil deixa de aumentar em 10% o PIB em decorrência da violência contra a mulher.
Mas não é apenas este tipo de violência que ocorre. A mulher está proporcionando violência a ela própria. Com filtro solar e sem cair dos saltos altos, a mulher passou de guerreira, a avassaladora, conquistou sua liberdade e transferiu a submissão dos homens para os padrões de beleza externos. Não basta ser inteligente, competente, bem sucedida e realizada profissionalmente. Ela se cobra ser magra, bonita, bem cuidada, corpo perfeito, sempre jovem, mãe compreensiva, dedicada, bem humorada, amante ardente e bem disposta, além, é claro, de economicamente independente. Que amplitude de exigências!
O excesso de demandas do cotidiano da mulher é o preço que ela está pagando por não saber lidar com as conquistas de forma equilibrada. Parece que o mundo vai acabar nas próximas horas e ela não pode respeitar a si, permitindo-se não sucumbir aos exageros da evolução tecnológica da beleza. Sepultar a celulite, as rugas e os complexos físicos, não deve ser mais importante do que a sua maturidade emocional.
A mulher pode desfrutar da tecnologia em prol da juventude, carregando na bolsa, além do filtro solar, a bagagem do que já viveu e as mágoas que chorou, para que a ênfase na aparência física em detrimento de sua capacidade intelectual não diminua seu valor. Pode aprender a lidar com a solidão, vencer o sentimento de culpa, encontrar um ponto de equilíbrio para o consumo excessivo, deixar de ser escrava de padrões de beleza absurdos e abandonar a tirania da balança, da moda.
Por outro lado, pode ter a alegria de escolher com quem, onde e como quer ir, desenvolver relacionamentos saudáveis, com autonomia, ao invés do tradicional “Eu só vou se você for”, “Você só vai se eu deixar”.


COMPORTAMENTO SEXUAL:


            Observa-se que hoje, o sexo não é mais o componente final de uma relação. Pelo contrário, ele faz parte dos itens que levam a decidir querer ou não querer um compromisso. É uma mudança significativa no comportamento feminino, tendo em vista toda a repressão que havia na educação das mulheres há tempos atrás.
            O médico, psicoterapeuta sexual Flávio Gikowate distingue a mulher sexualmente madura da mulher exibicionista.
            Segundo ele, a mulher moderna passou a amadurecer não só emocionalmente, mas sexualmente, de tal forma que ela decide se adentrar num relacionamento pelo simples prazer lúdico da relação. Ela não quer compromisso, não quer nada em troca. Quer se divertir, quer brincar na cama. Geralmente, ela é naturalmente sedutora, exuberante, resolvida e o conjunto de suas qualidades a destaca de mulheres que possuem uma beleza padrão sem mistérios. Esse tipo de mulher deve ser distinguido da mulher exibicionista também sedutora, que sofre de profunda imaturidade emocional, segundo Gikowate, caracterizada por forte egoísmo e baixa tolerância às frustrações; ela usa o intelecto aliado à sensualidade como instrumento para atingir seus objetivos. Apenas promete, mas foge da relação sexual porque seu objetivo não é o sexo. É a instrumentalização da sexualidade feminina a serviço de outros propósitos que não o prazer.  Trata-se de uma armadilha consciente ou não.
            A mulher sexualmente resolvida está a procura do homem sexualmente resolvido, que tem sensibilidade suficiente para distinguir o que está em jogo na hora da sedução. As armadilhas não fazem parte de seu repertório comportamental e ela se ofende quando não é tratada de acordo com sua clareza de intenção. Ela não precisa de subterfúgios nem de armadilhas porque atinge seus objetivos de forma auto-suficiente, independente, ficando a sexualidade livre para ser exercitada como fonte de prazer.
            Mulheres resolvidas não têm ressaca moral, porque há uma liberação interna para o sexo como há para todas as demais áreas antigamente consideradas tabus no universo feminino. Elas têm a razão fortalecida, autocontrole, segurança, ousadia para falar e para agir, auto-estima elevada, sabem viver o desejo com intensidade sem que isso interfira nas demais áreas de sua vida.
            Por todo este conjunto, elas acabam se sentindo atraentes e competentes ao ponto de não se preocuparem com a perfeição física; sabem que a sensualidade não depende de beleza física, mas de todo um conjunto. Beleza e sensualidade são coisas distintas e nesta competição, a sensualidade ganha no sentido de provocar o desejo e o interesse dos homens.
            Alguns homens ainda insistem em colocar as mulheres como farinha do mesmo saco. Com isso, os desencontros acontecem e muitas oportunidades se perdem por não haver um refinamento perceptivo sobre quem está diante de quem. Acredito que seja por este motivo que muitas mulheres acabam se machucando e também colocando os homens como farinha do mesmo saco.
            Na minha experiência clínica observo pessoas interessantes e belas, com muitas qualidades, em busca de romance, mais do que qualquer outra coisa. Mas o medo ainda as atrapalha quando estão diante daquilo que procuram.
            Fugir do prazer alcançável é a covardia justificada pela ausência de sensibilidade competente para distinguir que nada poderá acontecer sem que as duas partes realmente queiram.
            A mulher sensual e sexualmente resolvida descobre-se diante do homem resolvido quando ambos se permitem exercitar o lúdico de uma relação.


ENTRE MULHERES:

Estudiosos observam que a igualdade entre homens e mulheres nunca foi aceita. Eu arrisco dizer que nunca foi aceita até mesmo pela própria mulher, que passa a discriminar a si ou discriminar outra mulher, principalmente dentro do universo corporativo.
Não são raros ataques invejosos, competições desonestas e assédio moral entre as próprias mulheres no ambiente de trabalho, principalmente quando a competência evidente é mais um atributo a ser agregado à condição feminina.
Na opinião de Lívio Callado, ator e professor de Marketing Pessoal e Etiqueta Empresarial, as mulheres competem entre si, naturalmente.
Se a mulher aprendeu a conviver com as diferenças entre ela e os homens nos assuntos de rotina profissional, outro passo é aprender a conviver com as possíveis diferenças entre elas.
Causa-me perplexidade os jogos de poder entre as mulheres, que relutam em reconhecer capacidades, competência e liderança entre si, criando conflitos que desgastam as relações interpessoais.
Tudo o que foi conquistado para superar as distâncias que separavam a mulher do homem ao longo da História, através de direitos trabalhistas, do exercício diário de destruição do modelo frágil, agora pode ser avaliado como positivo: a humanidade sabe que homens e mulheres se enriquecem com suas diferenças.
Se um dia, as mulheres se uniram para vencer a discriminação e tantas outras doenças sociais, não faz sentido que utilizem a inteligência, poder e capacidade para construir a presente desunião que faz minar os esforços grupais. Seria uma mudança da posição de dicriminada para discriminadora?
A mulher aprendeu a se fazer respeitar com a sua postura, sua força criadora, e hoje dá a sua contribuição no mundo conquistando cada vez mais a igualdade diante de uma sociedade eminentemente machista.
Penso que o momento é também de conquistas internas, através do autoconhecimento, que pode levar a muitas mudanças no lar, nas empresas e organizações, no que diz respeito ao relacionamento da mulher com o mundo e sobretudo com a própria mulher.
           

            CONCILIANDO TRABALHO E REALIZAÇÃO:

A mulher conquistou espaço no mercado de trabalho com as qualidades altamente valorizadas tais como flexibilidade, capacidade de negociar, mediar, inovar, e aprendeu a conciliar papéis. Poderá construir uma nova história, na qual juntamente com o homem, encontrará novos pactos de convivência e novas referências de relacionamentos públicos e privados.

            Com a roupa lavada e estendida no varal, posso finalmente me sentar na varanda e assistir ao espetáculo do pôr-do-sol. Mas antes disso, com apenas um clique no mouse, da lavanderia para o mundo, vai este texto para você leitor (a).